na rua, na chuva ou na fazenda

domingo, abril 12, 2020

Jair ganha a batalha da imbecilidade e o povo sai às ruas. Viva a ignorância!


um vizinho (e eu quase o diria um amigo), pescador, motorista de ambulância e bolsonarista extremo me saiu, na última quinta-feira com uma pérola típica dos  defensores mais ardorosos do presidente brasileiro ao repercutir (ou papagaiamente repetir) uma afirmação cunhada pela equipe de comunicação do gabinete presidencial e exarada dos lábios do próprio capitão em mais um desses eventos matinais de brasilha: “depois dessa crise, vocês vão dizer que os cientistas estavam errados e o presidente estava certo o tempo todo!”

a frase afirmativa e majestática nasceu como arma a ser usada contra os defensores do isolamento social e aqueles que criticam a paixão de bolsonaro e uma parte do seu grupo ministerial pelo medicamento hidroxicloroquina ou, com mais intimidade, “cloroquina” como remédio eficaz contra a sars-cov-19 ou também intimamente, coronavírus.

em meio aos impropérios dirigidos à rede globo de televisão – eleita por dez entre dez bolsonaristas como responsável pela explosão da pandemia no brasil – e ao médico dráuzio varela que acaba de ser nomeado ‘médico da globo’ esse meu vizinho, ao repetir a frase de bolsonaro me fez lembrar de fernando collor de mello que se apossou de uma frase secular da filosofia grega ao vaticinar: “o tempo é o senhor da razão.” isto, nos estertores do seu malfadado mandato.

o messias bolsonaro tem, em sua personalidade, algumas características que fariam a alegria de qualquer psiquiatra ou analista da natureza humana se ele se permitisse a tal estudo. o culto à personalidade de homens que tendem a pruridos ditatoriais como donald j. trump, presidente norte americano e seu ídolo maior depois de edir macedo, olavo de carvalho e carlos bolsonaro, seu filho (e aqui, invertem-se os papéis com o filho se tornando referência para o pai); a mudança repentina de humor e de opinião e a aversão absurda que tem a ser contrariado. "bolsonaro odeia sombra" dizem os chegados ao seu cercadinho.

evangélico, o presidente queria que serviços religiosos como cultos e outras práticas se tornassem parte dos serviços essenciais da nação como saúde, educação, segurança e etc. não conseguiu e esperneou horrores. é quase a mesma coisa de quando quis nomear outro dos seus filhos – aquele que passou um tempo nos istêites aperfeiçoando o ingrêis ao fritar hambúrgueres como embaixador brasileiro junto à maior potência mundial.

contra tudo e contra todos, o presidente brasileiro se opõe ferozmente contra o isolamento social e contra o seu ministro da saúde, luiz mandetta (seguramente o seu hoje mais importante e sério auxiliar – pelo menos tecnicamente) e chegou a cogitar em demiti-lo: “a caneta ainda funciona!” teria dito. os dois tiveram vários ‘arranca-rabos’ em meio a reuniões ministeriais e os alcoviteiros de plantão como onyx lorenzoni e osmar terra, por exemplo, se apressarem a limpar as gavetas de mandetta. não deu certo. a popularidade de mandetta subiu aos céus e bolsonaro quase desce aos infernos antes do terceiro dia.

entre os que se aliaram, desde o início, ao presidente na cruzada contra o isolamento proposto pela organização mundial da saúde e outros organismos para combater a covid-19 estão prioritariamente pastores, “bispos” e “apóstolos” pentecostais como r.r. soares, valdemiro santiago e o próprio edir macedo, dentre outros menos midiáticos. a razão? suas igrejas perdem uma receita brutal com o confinamento. quer razão mais lógica? o fiel bolsonaro, de imediato, baixou um decreto liberando os cultos. perdeu para a justiça que determinou o contrário.

como um menino malcriado, bolsonaro desobedece sistematicamente as regras do combate ao coronavírus e, para mostrar que não está isolado, vai a padarias, farmácias de bairro, feiras-livres só faltando mesmo ir a uma festa de paredão. como ele é inimigo da rede globo, uma visita ao bbb 20 está descartada. mas sendo como é... quem sabe?

ao pregar a quebra do isolamento e sair por aí, o presidente finalmente conseguiu uma vitória. como nas eleições em que se consagrou como aquele que derrubou o poste de luizignatiusluladasilva, bolsonaro mostra que a imbecilidade, a ignorância e a irresponsabilidade (inclusive para com os outros) é contagiosa e contamina rápido. apenas 48 ou 49 por cento das cidades brasileiras estão respeitando as regras.

muitos ainda morrerão. mas a falta de senso, não. carpe diem!



quinta-feira, junho 27, 2019

dois parágrafos e uma linha pra vanessa



há milhares de dias, um bom tempo atrás, você primaverava meu verão em um junho como este de agora em que veraneia meu outono. Hoje, parafraseando um velho conhecido a quem não posso chamar de amigo (é, a vida tem dessas coisas), tenho mais passado que futuro, e é nesse passado que você se inscreve, se escreve e se insere sorrateira como as sombras no quintal de dona anita que me assombravam, me surpreendiam, mas sobretudo, me encantavam.



você me encanta de várias formas. algumas delas nem sempre agradáveis por me remeterem a dores antigas, anciãs como reumatismo, dores de coluna e achaques de velhice. outras, são ternas como cheiro de jasmins ou patchouli. me traz o olhar amigo e, às vezes, censuroso de anita de quem deve ter herdado partes. muitas partes. me traz ainda alguma poesia raivosa de quem te pariu e a quem, em toda medida possível, amei (talvez não tenha sabido dizê-lo). esta é você. o verão no meu outono que já se sabe inverno.


continue primavera e verão e que seu outono demore, demore muito a chegar!

terça-feira, maio 21, 2019

a star is born

desde janeiro, me abstive de postar qualquer coisa neste espaço que, embora considere meu, sei que de fato não o é. abstive-me simplesmente porque falar de política no contexto atual é chover no molhado ou, ainda pior, é inscrever-me em uma das duas facções em que se dividiu o país antes e depois das eleições de 2018.

o sentante atual da cadeira mais alta, mais macia e mais encantadora do palácio do planalto - um néscio comprovado - tem tentado cumprir as suas promessas de campanha: decretos e mais decretos sobre armas (por último, liberou a compra de fuzis); bate-bocas inúteis, sem sentido e sem fundamento pelas redes sociais que ele faz de conta que administra embora todos nós estejamos carecas de saber que o verdadeiro administrador é um dos seus filhos queridos.

manipulado por não sei quantas mãos e dedos, o discípulo do astrólogo olavo de carvalho rende-se ao canto de sereia daqueles que sonham com a imortalidade do bronze com que ditadores perpetuam sua vaidade e seu desejo de poder. ferido de morte para ganhar sobrevida durante a campanha presidencial, jair bolsonaro não é um sobrevivente. é o resultado de uma estratégia que só agora se revela como tal com o apelo a uma manifestação em prol dele mesmo no próximo dia 26.

E, como todos os seus antecessores na história das américas que não tem o inglês como sua língua mater, o presidente brasileiro desponta no horizonte nublado como candidato a mais novo caudilho deste pedaço de mundo chamado américa latina.

ignatius bem que o tentou ao fazer um jogo extremamente populista e que nos lançou no buraco financeiro em que nos encontramos. só não deu certo porque, como dizem os cientistas sociais lá de itapoan, o olho cresceu demais e aí meteram a mão na jaca "de com força" tanta que não sobrava nem caroço. e, além de tudo, do alto da sua esperteza, luiz ignatius, foi besta, otário, babaca, ao não perceber que pra todo sabido tem um mais sabido ainda. e deu no que deu.

o capitão, que se cercou de generais (talvez pra se vingar dos tempos de caserna quando recebia ordens até de majores) e astrólogos e atores pornôs e pastores e venezuelanos pra educar brasileiros e, acima de tudo, de familiares (filhos, primos, ex-mulher, compadres, afilhados e o diabo a quatro) aprendeu rápido, a dizer e desdizer em frações de segundo.
perigosamente à deriva, o brasil navega em direção a uma nova ruptura institucional comandada por um sujeito que acredita que o pior mal do país é a classe política - da qual ele emergiu direto para a presidência da república - e que a história que se conta da história do país precisa ser refeita, reescrita e recontada. desta vez, sob a sua ótica.

terça-feira, janeiro 29, 2019

uma experiência de quase vida


nasci, ou me deram à luz, em meados de 1950. não tenho a menor ideia do que eram aqueles anos ou como era a vida da minha família. meus pais, rufino e dona anita, nunca me contaram. ou por não saberem contar histórias – no que eu mais acredito – ou por não quererem me contar histórias nas quais, hoje, eu não acreditaria. e é assim que eu posso começar me contar ou contar uma história de uma quase vida que eu – como já deu para perceber, não sei contar.

sei, pela minha cor, pela minha estrutura familiar, que nasci pobre, remediado e de duros tempos (os de hoje, quando tento recuperar o que não tenho em memória, também são duros. diferentes, mas tão duros quanto aqueles que, suponho, tenha vivido). memórias bonitas como as fugas da escola para mergulhar em rios, riachos e chafurdar na lama, são recorrentes. outras, gloriosas (e hoje hediondas) como matar passarinhos, patos, marrecos e bichos do chão como coelhos, preás, raposas, veados e tantos outros também o são. tristezas? nenhumas. arrependimentos, poucos. este, sou eu.

filho de uma barriga de (presumo) cinco filhos, não fui ou fui, o último deles. lembro que (e a memória falha como nunca) a minha mãe deu à luz a uma menina que nem cheguei a conhecer (muito menos ver) em um aborto espontâneo. portanto, pela crueldade natural da vida e da maternidade, preferiu ver as trevas ou o paraíso. melhor para ela. lembro que a chamavam também, de anita. novamente, este, este sou eu!

anita, a mãe, dela, de mim, de zezito, de ivone e de vivi (apelido de antonio dos santos, pra variar) tinha um jeito duro, doce de ser; uns olhos cor de quem não sei o que era; um jeito espigado de bambu de paranaguá ou do riacho da guia que eu não conheço em mim mas me vejo em outros. me vejo em alguns daqueles que chamam de meus. filhos, netos... o quê mesmo?

quem sou eu?

vamos a mim? eu não tenho a menor noção ou conhecimento dos anos que envolveram minha nascênca, minha infância ou minha adolescência. sei – e isto é muito presente – do sacrifício em que vivíamos nos arredores de santo amaro da purificação, num pedaço de terra chamado de terra nova, quilombo de quilombos de vários lugares. morrotes e vales de um rio enorme (e hoje morto) que davam prazeres e dores  a quem ali vivia ou achava que vivia. foi onde cresci.

lembro de anita que deu olhos a danilo e aspereza a vanessa. do seu cuidado com um tal de carlito, que virou lallis depois de ter sido batizado carlos alberto. o carlito eu entendo, o lallis, eu compreendo... o carlos alberto, eu prefiro esquecer.

dona anita, como eu, sonhava, sonhou. rufino, me deu um rosto, um jeito, uma cor, uma feição (é a cara do pai!) e eu choro como um cretino por me saber parecido (não sei se igual) com um sujeito homem, feio e bonito ao mesmo tempo. sábio e tão ignorante que me fez ser tanto quanto ele (também não sei se tanto) a ponto de hoje duvidar se somos a reencarnação do outro se isto for possível. dele, tenho poucas memórias. os meus serão assim?

falava de dona anita (helenita, nos registros oficiais): ela me sonhava melhor. ela me sonhava grande. o que ela me sonhava?

definitivamente, não sou aquilo que ela esperava. tampouco sou o que eu próprio me esperava. as vezes, sou mesquinho, tacanho ou, na pior das hipóteses, canalha. na maioria das vezes, calhorda. comigo mesmo e poucas vezes, com os outros. isso me torna ruim. em todos os sentidos. principalmente, comigo.

cometi crimes em minha vida. crimes como me casar, fazer filhos que, ao contrário e como eu, também os cometeram: danilo cometeu filhos como joão e malu (que me olha com os olhos das duas anitas que eu amei (ou não soube amar) me perguntando coisas que não sei responder; vanessa me deu netos que eu não compreendo e me veem com olhos de netos. cometi outros, bem piores como não aceitar a vingança (?) de uma filha que não soube (nem eu) ser filha e, na consequência, não sermos netos nem avô. onde ela e eles andarão?

tenho (?) uma mulher que me ama – pelo menos ela diz e prova porque se mantém ao meu lado – privei-a de uma vida diferente da que tem; tenho (?) quatro pessoinhas que me chamam de avô (diferenciando por nomes) e o que dei a eles?

sabe aquela história do confessionário quando você entra e diz “pai perdoa, porque pequei?” pois bem, de forma alguma, eu diria isto. não quero perdões, ou absolvições. pequei porque pequei. simplesmente por ter pecado. perdão de quem? eu só preciso me perdoar. e não sei fazer isto.

os médicos, estes, sempre metidos a semideuses, dizem que existe uma experiência de “quase morte” quando o corpo deixa de funcionar quase que completamente e sem nenhuma explicação, ressuscitam. é a chamada “síndrome de lázaro”.

no meu caso, já que não morri (ainda) aos 63 anos, é uma experiência de quase vida. eu só não soube vivê-la.














terça-feira, outubro 09, 2018

pra seu zeca

meu caro amigo (se é que tenho a liberdade de chamá-lo assim), ao longo dos meus quarenta e tantos anos como jornalista e radialista, convivi com gente de toda estirpe. gente boa, gente mediana, gente grande, gente pequena... gente que nem merecia ser chamada de gente. convivi, tolerei (e olhe que a tolerância, assim como a pena é um dos piores sentimentos que se pode nutrir pelo outro) e passei incólume por todas essas gentes.

sou, por natureza, reservado. sou, também por natureza, pouco dado a demonstrações públicas de afeto. mas faz-se necessário - pelo menos para mim - o reconhecimento desses alguns poucos anos nos quais tive a honra, o prazer e, às vezes, o desgaste de trabalhar com o senhor (com você, se realmente eu fosse o amigo que esta escrita em tom coloquial pode levar a crer). desgaste, sim, porque, também às vezes, o seu temperamento forte mascarava o sujeito parcimonioso, afável e, desculpe a exposição, gentil e sentimental. fora isso, a convivência é fácil  embora nem sempre leve por conta de todos os seus próprios problemas enquanto parlamentar, enquanto líder político, enquanto ser humano que se dividia entre política, família, amigos e inimigos. inimigos nem tanto... uma boa parte, adversários.

vi o seu sofrimento com o sofrimento alheio. senti na pele essa preocupação genuína (lembra-se?). vi o sofrimento que se lhe cai nos olhos quando amigos queridos desavençam-se consigo (louro, ramon, otto e outros tantos), e a alegria que os fazem brilhar quando retornam. generosidade característica de almas nobres. não sei e não quero saber se já praticou alguma maldade. se bem que, quem nunca o fez que atire a primeira pedra.


esta postagem deveria ser endereçada apenas para o senhor mas prefiro torná-la pública como um reconhecimento, como uma homenagem de um profissional que aprendeu a admirar e respeitar um grande homem, um homem de respeito e a quem se deve respeitar. não se trata de uma despedida. despedidas são lúgubres e pesam na alma e a minha está leve. apenas entristecida. 

aprendi muito com o senhor. em todos os momentos. mesmo quando discordava dos seus pontos de vista. o humor estranho mas bem humorado, a mania de perfeição - a perfeição é uma meta defendida pelo goleiro, dizia a música - mesmo quando totalmente impossível. a eterna briga por morro do chapéu (que, sinceramente, eu não creio que o mereça tanto). 

este post, senhor deputado josé carlos araújo, jca, "seo zeca",  doutor josé ou ainda simplesmente, compadre zé carlozaraújo, como dizia o finado virgulino, é uma homenagem. pura, sincera e simples. como devem ser as homenagens.

quinta-feira, dezembro 07, 2017

a justiça é cega

A justiça é cega mas enxerga o lado que quer
foram vários anos de espera para duas famílias: de um lado, a família da médica oftalmologista kátia vargas. do outro, a dos irmãos emanuel e emanuelle mortos em um conflito de trânsito numa avenida litorânea de salvador. no início deste dezembro, as duas famílias se encontraram no salão de um tribunal rodeadas de advogados e diante de uma plateia ávida por um espetáculo mas, dizendo-se ansiosa por justiça. e é aí que a porca torce o rabo.

o desfecho do embate entre acusadores e defensores foi o mais inesperado, o mais surpreendente possível. por quê? menos pela habilidade dos contendores togados, mais pela inapetência do brasileiro já acostumado pela impunidade grassante nos mais altos níveis da sociedade, quatro dos sete jurados absolveram, totalmente, a médica que saiu sorridente, assim como todos que a cercavam, livre, leve e solta. e a sua consciência?

kátia vargas foi protagonista de uma cena cada vez mais comum em nossas ruas e avenidas: por um nada, motoristas, motociclistas, transeuntes e ciclistas se xingam, se estapeiam e, como neste caso, acabam matando. depois de alguma coisa que não ficou muito clara, kátia vargas e os dois irmãos se estranharam no charmoso bairro de ondina e a médica, também não se sabe por quê, armou-se do seu carro e arremeteu contra os dois que ocupavam a motocicleta. resultado: a moto, atingida pelo carro, desgovernou-se e nesse desgoverno, colidiu contra um poste matando os irmãos.

kátia vargas, ao longo desse tempo - entre o "acidente" e o julgamento - mudou, várias vezes, a sua versão para o fato. e, neste começo de dezembro, final de primavera, os jurados da pantomima em que se tornou o julgamento, decidiram que essas mortes foram obra do acaso. entre a fisionomia chorosa e abatida com que chegou ao salão do júri na condição de ré e o sorriso largo de inocente que ostentou na saída, ficaram a consciência da médica e seus defensores (aí se inclui ricardo molina -aquele mesmo do caso de pc farias e sua namorada - pago a peso de ouro para vir desqualificar os peritos locais) e a frustração de quem, por necessidade de sonhar com uma lei que servisse para todos, indistintamente, viu cair por terra sua fé na justiça dos homens.

kátia vargas está livre e impune. quem acreditava na justiça acabou condenado. 

bem a tempo, me vem à lembrança a revolta de um jovem jornalista de quem gosto muito. franco adailton, filho de dois bons e velhos amigos, disparou em uma rede social: "se quiser matar e sair impune, é só atropelar." tem toda razão, franco. toda razão.


terça-feira, novembro 14, 2017

jaws

eu sei que vocês vão tirar sarro da minha cara por causa do título acima. a razão dessa metidez de título postado em inglês é por uma só razão: não encontrei outro e aí me veio à cabeça aquele aterrorizante filme de steven spielberg onde um tubarão branco matava meimundegente numa praiazinha lá dos estadunidos. isto (o filme) foi em 1975 (viu como sou velho?). o título original do filme era "jaws" e aqui foi tupiniquimente traduzido para "tubarão". o interessante é que o cartaz do filme mostrava um tubarão exibindo galhardamente a sua dentadura como um sorriso. e daí, o que tem a ver o sul com a salsa? vais a excrever uma crônica sobre tuas memórias, ó gajo velho? podes estar a me perguntar enquanto lês. não. não é nada disso.

como sou velho e distraído, nunca havia me dado conta de um fenômeno provocado pelo advento dos celulares e das redes sociais que espocam a cada segundo e modificam hábitos, moldam novas personalidades até mesmo em quem já as tinham formadas de muitos e muitos anos. e esse fenômeno pode ser visto nos shoppings, nos jardins, nas praias, nos bares, nos restaurantes, nos cinemas e até...em acidentes. chamado de "selfie", o fenômeno é um exercício de narcisismo que serve, tanto para alegrar, quanto para entristecer. embora não pareça aos olhos de quem é adepto, pode ser perigoso para quem não se inclui na paisagem. 
resgate do passageiros da lancha  (foto:PM/BA)

outroramente, nos primórdios da 'selfie', uma moça estadunidense acabou filmando a própria morte ao se "selfiar" enquanto dirigia. recentemente, aqui na terra brasilis, um grupo de estouvados - e provavelmente, bêbados - a bordo de uma possante lancha fazia uma farrinha entre a baía de todos os santos e o litoral sul da bahia quando a tal da lancha naufragou. e o que um deles fez enquanto esperava ser resgatado? uma selfie. sacou do celular, botou o bracinho pra cima, arreganhou os dentes e, ploft! um click para a posteridade! dá pra imaginar leonardo di caprio e kate winslet fazendo uma selfie (ao diabo com as aspas!) na proa do titanic apontando pro céu segundos antes de despencarem nas águas geladas do atlântico norte?

pois bem. o tal do selfismo galopante que atinge bebês (eles já nascem agarrados ao celular antes das tetas da mãe), crianças, adolescentes, jovens e velhos, me passava desapercebido até poucas horas atrás quando saí do prédio em que trabalho e me deparei com um sujeito de dentes cavalares, um barbicacho sob o queixo, um sol de lascar e parado, aproveitando um baita engarrafamento monstruoso, sacou o celular e, num gesto universalizado, entortou-se todo, levantou o celular, congelou o sorriso dos tais dentes que não cabiam na boca e tascou-se um click. depois, num outro gesto também universalizado, foi conferir o resultado. não gostou e fez de novo.  depois, teclou qualquer coisa no aparelhinho, abriu outro sorriso aterrorizador e foi-se embora. fiat lux, nasceu este post!

vai que steven spielberg, num salto para o futuro, conheceu a técnica da selfie e aplicou-a no filme ou, pelo menos, no cartaz. 




terça-feira, outubro 17, 2017

lavando as mãos ou um outro jeito de tirar o braço da seringa

eu ando careca de saber que em brasilha - e fora de lá - ultimamente, tudo pode acontecer. e acontece. tão careca de saber disso, deixei de escrevinhar sobre o assunto porque já virou papo de preá com melancia e todo mundo fala sempre a mesma coisa. são os batista, é o battisti, são os vieira (não as vieiras portuguesas que são deliciosas!), enfim... aí você deve estar se perguntando: "então por que cargas dágua resolveu escrever agora, mané?" bem, a explicação é simples e beira o nonsense.

nessa coisa do aécio das neves empedradas que despeja nos copos de whisky nos bares do rídejanêro, há uma queda de braço entre o éssetêéfe e o senado. segundo as más línguas, um quer meter a colher na sopa do outro e, no meio dessa profundíssima discussão, desse profícuo debate, estão os colegas do tadin' do aécin'. todos torcendo por uma "solução pacífica". há quem queira que o sobrinho do finado tancredo saia. há também quem não queira e, há ainda aqueles que não o querem nem tão perto nem tão longe. apenas não o querem. mas não dizem isto às claras nem que a vaca tussa.

nesta fase, em que os poderes que andavam se bicando fizeram as pazes, os senadores viram-se então atormentados por outro dilema: como fazer a tal solução pacífica?  e descobriram um jeitinho que já se utilizaram outras vezes e propuseram então a votação secreta. vozes se alteraram, o "clamor popular" (que não aconteceu mas se advinhava que viria) calou fundo nas consciências e um juiz-ministro jogou a pá de cal: "vai ser tudo às claras!" detonou o magistrado novamente metendo o bedelho nas soluções alheias. aí danou-se!

com a decisão do cidadão togado, o senado fez-se correria (nada a ver com o governador baiano rui costa) e o resultado é que está uma debandada geral com as desculpas mais esfarrapadas possíveis para tirar o braço da reta. tem senador em missão no exterior, tem senador visitando a avózinha que está em vésperas de ir pro goiás... tem desculpa pra todo gosto. agora, aqui pra nós, a desculpa mais deliciosa - e é a razão deste 'post' - é a de ronaldo caiado, ruralista de quatro costados, ele próprio que do mesmo jeito que seu colega quase condenado a ter o mandato guilhotinado, também tem os olhos vigilantes daquela moça vendada sobre si. caiado disse estar impossibilitado de comparecer à sessão velório ou de extrema-unção por um motivo muito simples: caiu da mula.

não apresentou atestado médico. a mula ainda vai ser ouvida pela pgr e já negocia uma delação. até lá....

quarta-feira, setembro 13, 2017

as malas da redenção

onze entre dez baianos reagiram com uma sincera inveja à descoberta do navio santa clara* e seus tesouros em plena sala de um apartamento num bairro no antigo centro nobre de salvador. emprestado por um amigo, o apartamento - que se tornou uma espécie de eldorado - serviu, depois da descoberta do tesouro escondido, de motivo de descontentamento para os moradores humanos do prédio que tiveram atraida para o seu, até então bucólico sossego, as atenções de gregos, soteropolitanos, jornalistas, blogueiros e até fofoqueiros de todo o país. quanto desconforto!

pois bem, o tesouro de ali babá encontrado no bairro da graça deixou no ar inúmeras e variadas opiniões. variaram do "como é que eu não sabia disso?" a até o famoso "eu já imaginava!". mas revelou também uma demonstração do que o amor materno pode fazer pela sua cria. para minimizar 51 milhões e alguns trocados de esperteza, a mãe do dono dessa dinheirama, mesmo tendo sido visitada pelos agentes da lei - que não perdoa a posse de tesouros escamoteados sem declaração do imposto de renda, fundo partidário e o quinhão de banco dos mais chegados, declarou com os olhos rasos d'água que seu filho amado, sofria de uma doença psíquica: a cleptomania!

a moléstia que acomete o gordinho ex-todo poderoso nas salas, ante e entre-salas de brasilha é uma doença que, ao que parece, naquelas e em outras plagas vem se tornado de tal forma contagiosa que, daqui mais um pouco, a organização mundial da saúde vai recomendar que os cientistas se debrucem à cata de uma vacina para blindar os mandatários de todas as esferas de governo mundo afora. mas, como criar uma vacina dessa estirpe, já que a bendita doença é da cabeça, da personalidade, é da alma? vai que a gente precisa mesmo, para que isso dê certo, daquela máxima da rainha do conto alice no país das maravilhas: "cortem-lhes as cabeças!"

pensando bem - e olhe que se eu pensasse tão bem assim provavelmente não seria eu - as malas e caixas que criaram essa imagem da nau santa clara, do eldorado, de tesouro de ali babá na minha cabeça, podem muito bem ter sido as malas da destruição do que restava do poder do gordinho valente que chora quando é picado por uma reles muriçoca. podem ter sido... pra ele e o seu clã e agregados mas, pra muita, muita gente mesmo, seriam isto sim, as malas da redenção! o santo graal dos acasos.

*curiosamente, o santa clara saiu de salvador com uma carga avaliada em, cerca 200 milhões de dólares atuais e naufragou ali pelas bandas de arembepe, bem perto de onde o moço dos parcos 51 milhões (de reais) mantém um bela casa.

terça-feira, agosto 15, 2017

reconhecimento de paternidade ou o que falta do que fazer não faz?

 hoje cedo, nas minhas viagens pelos sites de notícias da cidade da bahia, me deparei com uma notícia deveras assustadora para quem, como eu, gosta de animais ou mais sofisticadamente falando, "pets". a desalentadora notícia tinha como pano de fundo a iniciativa de uma vereadora (escrevo assim por ignorar completamente o feminino de 'edil' e tenho a vaidade de querer escrever de forma culta) que pretende obrigar os cartórios a emitirem certidões de nascimento para cães e gatos soteropolitanos tornando por consequência, os declarantes dos dados constantes dessas certidões mães e pais dos canídeos e felinos que com eles convivem. 

portalcafebrasil.com.br
a moça - que me perdoe a presunção - afirma que sua iniciativa vai promover uma maior integração entre os animais e a família dos seus donos (quero dizer, pais) e ainda vai facilitar a locomoção dos bichanos e totós nas viagens da família porque, ao lado da tal certidão de nascimento, vai também uma "carteira de identidade" dos bichinhos com direito a foto e devidamente reconhecida pela autoridade cartorária. ah, sim, haverá também a obrigatoriedade de "dar o nome" ao bicho. quer dizer: na hora em que o bicho é reconhecido em cartório como membro da família, ele ganha também o direito de usar o seu sobrenome. 

lá em casa, em priscas eras, quando um casal de akitas era dono do terreiro, ia ser uma festa! uroi, um akita tigrado, iria se chamar uroi vittorio roma de santana. peraê! dona dida teria parido um cachorro?! valha-me deus! pior seria se um 'adevogado' desses mal intencionados resolvesse exigir que o meu cachorro, a partir do momento em que foi reconhecido como filho tivesse todo o direito inerente à sua nova posição no seio familiar? 

isto que cito acima é apenas a ponta visível do iceberg do projeto da ilustre defensora dos pets. em sua justificativa, ela chega a dizer "eu tenho vontade de ter o registro do meu animal, do meu filho!" aí eu me pego imaginando uma cena em que ela, vai caminhando com seu maltezinho ou chihuaha ou vira-latas e encontra uma amiga de longas datas: "matilde, querida, há quanto tempo!" "oi, mila, menina, você não mudou nada e que cachorrinho lindo esse!" "ah, menina, este é meu filhinho toby, de dois anos" "ah, querida, e você casou quando?"

pior é se, seguindo sua iniciativa, outros parlamentares da mesma linha de defensores dos animais resolverem aperfeiçoar sua ideia e estenderem-na para outras espécies. nossenhora! o que vai ter de orgulhosos pais dizendo "meu filho é um jumento" ou mães gloriosas curtindo no face "olha só a vaca da minha filha!"

o que a falta do que fazer não faz?


sexta-feira, junho 02, 2017

desisti de desistir (o retorno)

diante de tanta ignomínia que tenho visto, ouvido e lido sobre a república brasilis nesses tempos bicudos de lava-jato, eu havia decidido abrir mão do direito de tentar opinar sobre tudo isto que vem acontecendo. porém, ah! porém, como diria o mestre paulinho da viola, descuidei-me da minha decisão e eis-me aqui, outra vez, falando por escrito, aquilo que me vai na alma brasileira que carrego nas costas. no noticiário de sexta-feira (2 de junho), luizignatiusluladasilva, primeiro e único (e espero, último) boquirrotou para quem quisesse ouvi-lo (e existem milhões de tolos que o veneram)entre gargalhadas da plateia: "um canalha de um empresário diz que fez uma conta no exterior pra mim e pra dilma, mas a conta está no nome dele e ele que mexe na grana. tá na hora de parar de palhaçada, que o país não aguenta mais viver nessa situação, nesse achincalhamento."


investigado em cinco inquéritos na operação comandada pelo juiz sergio moro (eleito como o incendiador de brasilha e de outros cantos das grandes empreiteiras),  ignatiusluladasilva manipula com extrema habilidade a multidão embasbacada que o acompanha nos comícios que tem feito desde que começaram as investigações. ora vítima, ora algoz, ora criminoso ora herói, ele ganhou, de há muito,  o meu respeito por essa habilidade. sim, eu o respeito como um dos mais habilidosos políticos que este país já concebeu algum dia. sem diplomas acadêmicos - à exceção daqueles honoríficos - o sujeito que passou de "sapo barbudo" a "pai dos pobres" com suas ações de cunho assistencial-populista como um getúlio vargas nordestino (embora ele o negue sempre com atitudes que nada tem a ver com o sertanejo deste lado de cá do país), ignatius, cuja enorme capacidade de articulação e manipulação é a mesma da sua voracidade aos espíritos etílicos sejam lá de que procedência forem, desqualifica toda e qualquer acusação. na verdade, ele nem deveria mais tentar desqualificá-las mais já que a culpa foi, segundo ele mesmo em depoimento a moro, da pobre dona marisa, egressa deste mundo de meu deus há pouco tempo. declaração das mais infelizes que esse astro do picadeiro em que o brasil se transformou já pode prestar.

deixemo-lo de lado, vamos pensar nas outras pobres criaturas que, como ele (não deu pra deixá-lo completamente de lado), foram ou são alvos da lava-jato: luiz argolo, ex-deputado federal, antonio palocci, ex-braço direito de ignatius; marcelo odebrecht, ex-mandachuva da empresa que leva o nome da sua família; eduardo cunha, ex-todo poderoso da câmara; sergio cabral, ex-governador do rídejanêro e amante de jóias e jantares nababescos... todos (por enquanto) enjaulados e apreciando a paisagem das janelas (?) de suas celas. outros, que não foram e não são alvos da lava-jato, percorrem as ruas e vielas do país como baratas tontas procurando emprego, comida, escola, saúde e tudo o que o estado deveria - em tese - ser o provedor, estão tão encarcerados quanto os acima citados e seus companheiros que não foram aqui nominados. são prisioneiros de homens sem escrúpulos (e suas mulheres) que fazem valer a máxima  publicitária cunhada na década de 70 do século passado quando um jogador de futebol dizia que "como todo brasileiro, eu gosto de levar vantagem em tudo!".

o empresário-bomba, joesley batista, também está luxuosamente prisioneiro na quintavenida lá de noviorque em seu apartamento de 52 milhões de dólares. enquanto isso, sãpaulo se divide em cracolândias e o rídejaneiro vê as armas dos traficantes chegarem em seu principal aeroporto. mas "o rio de janeiro continua lindo..." diria gilberto gil em seus antigos devaneios musicais. aliás, o rio de janeiro continua sendo o principal polo de tráfico internacional de cocaína do país, continua sendo o quartel general dos barões da droga. infelizmente. porque, como o resto dos brasileiros, o rio de janeiro não merecia e nem merece ter se tornado isto. chicobuarqueando: "amanhã, há de ser outro dia..."


e como nem só de luizignatius et caterva vive o meu desapontamento com este brasilvaronil, o atual inquilino do palácio do planalto e que prefere se homiziar no palácio do jaburu, também articula e manobra suas artimanhas: para proteger seus aliados e quebra-facas, baixa medidas provisórias como as crianças baixam aqueles joguinhos enjoados no tablets. só que, no caso dele, são ordens que blindam seus asseclas e os isolam da possibilidade (real) de visitarem, na condição de hóspedes, os mesmos presídios da turma que falei lá em cima; para se proteger, demite e nomeia ministros justamente para os tribunais onde ele poderia, eventualmente, ir parar.

segunda-feira, janeiro 16, 2017

encarcerados

finalmente, as grandes redes de tevê brasileiras decidiram-se a mostrar, ainda que superficialmente, a guerra civil em curso no brasil. deixaram de lado as mazelas bolivarianas, as querelas religiosamente discutidas a mísseis, bombas e correlatos lá do oriente médio, a catequização supostamente evangélica dos macedos e seus congêneres praticada exaustivamente com o fito de enriquecer "bispos", "apóstolos" "pastores" e nenhum "judas" através de horários comprados ou não e deram notícias sobre o quanto se mata neste imenso país tropical. nem todas o fizeram, claro. mas devem ter lá suas razões.

foram declinados da cobertura, a turma lá do éssetêéfe, a mulher do cunha, o sofrimento de cabral, e o calvário de odebrecht lá em curitiba. sequer foram lembrados "à vera" o calheiros, o maia ou mesmo o temer - presidente tão acidental quanto a matança lá do amazonas - ou o collor de mello, grande defensor dos seus direitos e autor de metade dos pedidos de impugnação do procurador janot e dos juízes do tribunal que citei acima.

eu não sei  - e aí me perdoem a ignorância - qual a população carcerária do brasil (se é que se pode chamar de cárcere aquele lugar onde se fazem festas regadas a whiskies, vodkas e etcoetera servidas por prostitutas ou melhor dizendo, garotas de programa e com segurança estatal na figura dos guardas penitenciários agenciados por diretores penitenciários e, algumas vezes, desembargadores). só sei que mesmo chegando a 10 ou 20 por cento do total de brasileiros, ela já se organizou social e politicamente. tem toda uma cadeia (trocadilho mais infame!) de comando digna de brasilha.

organizaram-se em "facções" onde cada um toma partido (mais um trocadilho miserável!) para o que mais lhe convier e menos lhe ameace o pescoço. tem partido, quero dizer, facção pra todo gosto: pcc. cv, cn e muito mais dessa sopa de letrinhas que o brasileiro tanto se apega. nas terras baianas, onde a criatividade reina, existem o bdm e as outras siglas já ditas acima e uma outra de nomezinho bem sugestivo: katyara. quanta singeleza!

estamos nos primeiros dias de 2017 e, sem nenhuma sombra de dúvida, a articulação político-administrativa dessa parcela de brasileiros, mostra que sabe mandar e sabe se fazer obedecer. para mostrar seu poder de organização e mando, determinou a seus ministros, secretários, subsecretários e juízes uma ação efetiva em todos os seus palácios e o resultado é - até porque a ordem é ainda vigente - algo em torno de 200 mortos. pelo menos metade deles, decapitada.

a sorte do povo que esvoaça em brasilha é que, lá não se cortam cabeças. pelo menos não literalmente. de qualquer maneira, embora estejamos, em tese, livres da prisão, vivemos todos encarcerados.  

quarta-feira, dezembro 07, 2016

"Tempos estranhos os vivenciados nesta sofrida República",

ando mesmerizado com esse brasil varonil dos últimos tempos. até parece que a nação inteira está sofrendo de transtorno bipolar ou de esclerose múltipla ou de esquizofrenia aguda ou de imbecilidade crônica. qualquer das opções parece ser válida. assim, tem dias que o país é uma alegria só, uma gargalhada só. dia seguinte é uma tristeza de dar dó. dia seguinte ao dia seguinte, é de uma violência ímpar - mata-se diariamente no brasil uma batalha africana. na sequência desses dias, pacifica-se em meio à sua guerra pessoal e chora pitangas por jornalistas e jogadores de futebol. é um país justo e fraterno em meio a tanta injustiça e fratricídio generalizado.


é este brasil que me apavora, já que não me encanta. lá em brasilha, que teve a honra de receber brasileiros ilustres e outros nem tanto assim (penso que aquele rapaz lá, da aventura palociana, era sim, um dos mais ilustres embora menos letrado), a bruxa anda solta - falando nisso, o quer quer dizer "estou na bruxa"? - num joguinho absurdamente estranho que começou com a derrocada de madame rousseff, avatar de ignatius, as peças do dominó do poder também caem, sequencialmente, uma atrás da outra. e essa queda parece não ter fim. primeiro, dilma; depois, o cunha; agora, o renan periga seguir o mesmo caminho e abrir caminho para os jucás, os vianna et caterva. até o temer, que deixou seu articulador-mor, geddel, cair, pode também seguir este caminho. mas renan, e não somente ele, não quer cair sem lutar, sem espernear. afastado da presidência do senado pela corte suprema da justiça que o tornou réu, renan não se afastou. muito pelo contrário: juntou seus coligados - pra não usar algo mais pesado na definição - e determinou que soldassem sua bunda à cadeira que o garante como um provável substituto de temer numa provável ausência - curta, prolongada ou até mesmo defintiva.
a frase que dá título a esta postagem não é minha. é do ministro marco aurélio mello que afastou o renitente não afastado renan. e ele tem toda razão. os parlamentares, diante da lava-jato comandada por um tal sérgio moro, de quem eu nunca havia ouvido falar até começarem a ruir os pilares do congresso, inventaram de criar uma nova lei para se juntar às milhares - e quase inúteis - que já temos por aqui: um pacote anti-corrupção que previa julgamentos rápidos e penas duras para tal crime. aí, na calada da noite, sorrateiramente, mudaram a zorra toda e ainda pespegaram um tal de crime por abuso de autoridade a ser imputado a juízes, promotores e policiais ao investigar possíveis criminosos. desmoralizado o congresso, cambaleante o executivo, resta apenas enxovalhar, achincalhar, desmoralizar a justiça.

é... tempos estranhos os vivenciados nesta sofrida república!

quarta-feira, julho 13, 2016

homens sábios...


durante todo esse imbróglio - que ainda não acabou - lá nas pradarias de brasilha, eu fiquei aqui, no meu cantinho, mudo. até porque o mar não está pra peixe nem o céu pra urubu. vai ver que alguém resolve, nem que seja de brincadeira, apontar o dedo pra mim e vocês bem o sabem que, nesses tempos de lavagens a jato, até que você prove que jacaré não voa, o bicho pega e pega feio. mas voltemos ao que interessa já que, medo desses negócios eu não carrego ou, se carrego, nunca senti o peso.


recomecemos: durante todo esse imbróglio lá nas pradarias de brasilha, eu fiquei no meu cantinho completamente mudo, com olhos esbugalhados e ouvidos estuprados, vilipendiados a não mais poder diante de tudo que via e ouvia (continuo vendo e ouvindo). o brasil é estarrecedor. desde os primeiros tempos de brasil. emparedado por denúncias sobre denúncias e embasbacado diante do cinismo vigente de quem, por definição, deveria ser liso (no sentido de honestidade) me sentia assim meio que o cocô do cavalo do bandido que roubou seu próprio parceiro. e olhe que o cavalo nem merecia estar no meio dessa bandalheira!


bem, diante do exposto, vamos ao que interessa e que é o motivo desta postagem: duas frases, ditas por personagens diametralmente opostos até onde eu sei, me motivaram. a primeira, escrita por um jornalista, resume bem o pensamento de uma grande parcela de quem acompanha a movimentação brasiliana (menos o carlos marun et caterva): "cunha é hoje um cadáver político e um presidiário adiados". lapidar. a outra, dita por ninguém menos que eduardo cunha, aponta claramente o descalabro que é a forma como os brasileiros escolhem seus representantes e o que eles fazem as esconsas pelos corredores do congresso: "hoje sou eu. amanhã, serão vocês." e reafirmou: "hoje sou eu. é o efeito orloff. vocês, amanhã". também lapidar. 


defendendo o indefensável, cunha disse que passa por um processo político. dona dilma disse e vive dizendo a mesma coisa. quem tem mais razão? disse ainda que existem 117 dos seus pares e 30 senadores que são alvo de investigações e, segundo ele, não escaparão. parafraseando um poeta baiano, só nos resta dizer: triste brasil! podre brasilha! por uma questão de justiça, devo dizer que, mesmo assim, ainda existem homens de bem que não carregam a pecha aplicada a cunha&cia. existem figuras que, apesar da proximidade do chiqueiro não chafurdam na lama. que continuem assim.



quinta-feira, abril 28, 2016

a gênese do brasileirês (o advento, segundo patinhas)

conheço bem o ex-bendengó, jornalista e homem de marketing joão santana. este é o vulgo registrado no cartório de patinhas. um sujeito calmo, metódico, de gesto bem alinhado e que já chegou a ser conhecido nas antigas redações recheadas de olivettis, remingtons e teletipos  e telexes como "tripé", "pé de mesa" e outros nem tão claros assim. mas isto é pré história.

do que esta postagem pretende falar e que envolve patinhas (tangencialmente, já que parte do crédito vai para duda "briga de galo" mendonça, outro homem de marketing que cunhou o palavrão "marqueteiro") é a gênese porque passa o linguajar português no brasil de dilma, lula, temer e cunha. pobre língua tão vilipendiada, tão ultrajada, tão estuprada por aqueles (eles mesmos) que a pretendem bela a ponto de sofrer assaltos tão avassaladores. pior é que encontram seguidores entre jornalistas.

dia desses, já faz um bom tempo, me queixei, como venho me queixando, desse palavreado tinto de vermelho petê que cunhou o verbete 'presidenta' só porque uma mulher ascendeu ao cargo máximo desta republiqueta verdamarelo. todo o brasil dos cumpanhêros e cumpanhêras vibrou e adotou a tal palavrinha como o supra sumo da 'finesse' linguística. 

acompanhando a onda, alguns neo-jornalistas, recém egressos da faculdade e recém ingressados no metiê das redações onde não mais pontuam a barulheira das máquinas de escrever nem os frenéticos estalidos dos telexes e teletipos ou a fumaceira dos hollywoods, ministers, continental sem filtro e, às vezes, só para transgredir, alguma cannabis sativa que se misturava ao tabaco, embarcaram de vez nesse negócio de encher a língua pátria (caetano veloso a quer mátria) de novos palavrões. alguns, calcados numa versão livre dos termos anglo-saxônicos que regem a tecnologia da informação; outros, apenas para seguir o modismo - quer dizer, seguindo a manada (melhor dizendo, seguindo a tropa).

Assim, carregar (um arquivo) passou a ser "upar"; apagar (um erro de digitação, uma informação incorreta) virou "deletar"; mandar uma mensagem do aplicativo mais comum é agora uma das expressões mais correntes no diálogo virtual: "te mando um zap!" e la nave va!

perplexo, me deparei, há algumas semanas, quando um repórter jogou na minha cara, quer dizer, tascou no seu texto para ser lido on-line, um "feminicídio". chocado, imaginei estar sonhando, passando por uma crise de senilidade ou então lombrado por ter fumado um baseado maior do que o usual. mas aí, me lembrei que nunca experimentei nem um "pau" sequer de um béck. me arrepiei todo mas deixei a coisa passar. vai ver que era só um espasmo qualquer do tal escriba (ele sim, deve ter fumado algum ou cheirado um pouco de orégano). 

nem bem duas semanas se passaram e lá vou eu, na minha ronda inútil pelos sites e blogs em busca de algo interessante nas notícias. daí que meus infelizes olhos se deparam com a chamada trágica: "homem mata sogra e esfaqueia ex-mulher em amaralina". a miséria humana é extremamente atrativa. muito mais quando é a dos outros. como ex-repórter policial (verdade! fui repórter de polícia um dia!), corro sedento para a notícia e eis que fico estarrecido (não com o crime, a morte agora é banal demais para estarrecer quem quer que seja!) com o fechamento da notícia: ("... o delegado fulano ficou encarregado de investigar o feminicídio"). danou-se!
com o palavrão "presidenta" patinhas fez escola. falta pouco para estabelecermos definitivamente que feminino de estudante é estudanta; que a fêmea do elefante é elefanta; que o macho da formiga é formigo e vamos por aí.

valha-me deus, nossa senhora! com essa gênese,

daqui mais um pouco chega o apocalipse!




segunda-feira, abril 18, 2016

o perigo de se pedalar na republica brasiliana

nunca morri de amores por aquela senhora que se aboleta no palácio do planalto central e que seus admiradores - mesmo os mais letrados - apelidaram de "presidenta". também não morro de amores pelo sorriso vampiresco do sujeito escolhido para ser o seu segundo e que, por isso mesmo, ocupa um outro palácio planaltino. menos, bem menos ainda, pelo carioca representante-mor da vagabundagem política que se tornou rotineira no país. simpatias à parte, o espetáculo grotesco oferecido na tarde/noite deste domingo (que alguns pressupõem histórico) na câmara dos deputados, lá em brasilha, me deixou num estado de depressão digno de um sujeito que começa a subir o cadafalso.

no caso da tal senhora, vai que o problema dela não é a sua arrogância contumaz, não é a sua incompetência como gestora ou sua submissão ao seu criador. deve ter sido, simplesmente, o peso monstruoso do crime cometido contra a língua portuguesa quando pespegaram-lhe nas costas o aposto de "presidenta". uma palavra "monstra". Deixemos de lado as questões linguísticas e de personalidade até porque não tenho sequer resquício de especialização para tais julgamentos.

o espetáculo proporcionado por cunha e seus pares foi, como disse lá em cima, deprimente. até mesmo para um sujeito razoavelmente bem humorado como eu. pra começo de conversa - e já estamos no meio dela - não entendi a razão dos 30 segundos para se dizer "sim" ou "não". ninguém respeitou o cronômetro. todos tinham necessidade de homenagear entes queridos não importava se vivos ou mortos, cidades, vilas, vilarejos e, quem sabe?, animaizinhos de estimação. isto sem contar com as inúmeras citações de cunho religioso. eu não imaginava, nem de longe, que a câmara dos deputados era tão ciosa da presença do onipotente até ontem. nunca, na história deste país (lembra, lula?) o senhor de todas as coisas foi tão lembrado. um certo cantor de axé que se metamorfoseou de pastor evangélico soltou a pérola das pérolas: "a soberba 'procede' a queda" disse o tal. eu sempre soube que "preceder" é uma coisa e "proceder", outra. no entanto, nesses tempos de novidades como a palavra presidenta...

mas não foi só ele que nos brindou com essas coisas. houveram muitos outros. então, deixemo-lo de lado. pior mesmo era ter que assestar o olhar na cara de eduardo cunha e notar a sua indiferença, a sua impavidez diante daqueles que, dedo em riste, apontavam-no como mentor de toda a pantomima apenas para garantir a sua sobrevivência sob o sol de brasilha e do rídejanêro sem ter de vê-lo nascer quadrado sob os olhos amendoados do japonês da federal. o sujeito não mexia um músculo sequer a não ser aqueles responsáveis pelo esgar de cinismo proporcionado pelo risinho de canto de boca com que ele, de vez em sempre, nos brindava. o desprezo que ele deve ter pela moral deve ser do tamanho do universo. e seu exército? teve até um dos seus capitães que profetizou a sua entrada para a história do brasil. só não disse por qual porta.

enfim, apesar de todas as homenagens, beijos enviados com atraso ao filho esquecido, saudações a martin luther king que, se vivo fosse pediria pra morrer outra vez e odes a lugares recônditos sempre citados como "minha terra amada" e etecétera e tal, ficou claro como as águas do rio doce que em, brasilha, no que se refere a política, é muito, muito perigoso andar de bicicleta.




segunda-feira, janeiro 11, 2016

jacques, sem 'c' e o pragmatismo da "cumpanherada"

sempre fui aconselhado pelos mais velhos - ou mais experientes - a nunca tentar me defender desqualificando meu ou meus acusadores. isto, até quem tem qualquer fio de cabelo a mais do que eu - que não tenho tantos assim - está careca de saber. até mesmo velhos 'cumpanhêros' do partido organizado no brasil com o propósito de servir à classe dos trabalhadores. intenções à parte (já que não conheço partido algum que defenda interesses de classe outra que não a dos seus integrantes), parece que a militância (é assim que chamam a massa que o acompanha em suas manobras) o tal do partido dá mostras, e de sobra, que a máxima a que me referi não surte o menor efeito em seus dirigentes mais diligentes.

envolvido até o talo no festival de horrores que se apresenta no palco da política brasileira, o partido ou seus próceres, para não me tornar tão injusto assim, faz elegia à autocrítica mas não aceita, sob nenhuma hipótese, a crítica. nem aquela que, partindo do seu próprio seio, deveria ser mais bem digerida por ser uma autocrítica, um reconhecimento dos erros cometidos e um possível farol para um novo caminho. 

por esses dias, o ex-governador baiano e atual ministro da casa civil de dona dilma rousseff, jaques wagner - cujo nome perdeu o 'c' da grafia original para se aportuguesar e se tornar um pouco mais baiano - teve a ousadia (e a coragem, diga-se de passagem) de manifestar-se e dizer, com todas as letras, que a agremiação da qual ele é um dos expoentes, "se lambuzou no poder" ao reproduzir metodologias antigas. wagner não descobriu a pólvora ao citar aquele ditado dos nossos avós que diziam que gato que nunca comeu melado, quando come se lambuza. mas foi de uma honestidade nunca vista dantes na história do partido dos 'cumpanhêros e 'cumpanhêras'. e sua honestidade custou caro porque, "nunca, na história deste país" como diria o portador de deficiência física em uma das mãos, luizinácioluladasilva, primeiro e único, ninguém tem o direito de criticar o partido que tirou o povo do afogamento econômico e social por estar abaixo da linha de pobreza. nem mesmo seus melhores quadros. como é o caso de wagner.

pois bem, aí a "cumpanhêrada" reagiu e assim, logo depois das declarações do ministro baiano/carioca da gema, começaram a espoucar denúncias de todos os pontos cardeais do presídio lá do paraná onde se encontram os principais elementos capturados pelas redes das operações da polícia federal numa pesca capitaneada pelo juiz sérgio moro e pelo procurador da república, rodrigo janot. claro que as denúncias fazem parte da cartilha orientada por quem? a quem interessa a queda do homem que fez mea culpa e expôs ao país, pela primeira vez, a face compungida de um pecador que se
ajoelha e diz "perdoa, porque pequei!"?



o atual ministro de dona dilma está agora sob suspeição de ter participado de não sei quantas falcatruas de mensalão, petrolão, propina disto, propina daquilo... isto deste 1.500 quando cabral achou o brasil e pero vaz de caminha descobriu que aqui, em se plantando tudo dá. só faltam acusá-lo de ter roubado uma lata de leite ninho, uma dúzia de ovos e um quilo de farinha no mercado da rede carrefour. se o acusarem disto, meu amigo... sinto muito: vai ser cadeia pro resto da vida e mais seis meses.

em tempo: numa entrevista à folha de são paulo, um grande jornal lá do sul maravilha, uma conceituada brasilianista norte-americana disse que o que mais chama a atenção nos casos de corrupção brasileira noticiados nos estados unidos é a atitude dos envolvidos "com a certeza da impunidade". ela é barbara weinstein, professora da universidade de nova york.

quinta-feira, dezembro 17, 2015

what's up, doc?

confesso abestalhado que não sou usuário contumaz do aplicativo whatsapp mas, me confesso ainda mais abestalhado que começo a achar que a célebre frase atribuida a charles de gaulle afirmando que este não é país sério caberia como uma luva na justiça de sãpaulo ou, generalizando, na justiça brasileira. isto dito, fica patente aqui a minha paleontológica (já que sou um dinossauro da era moderna) revolta contra a decisão de suspender por 48 horas a utilização dos serviços do tal do zapzap.

o argumento acatado pelos homens togados lá de sampa pra suspender o zap só se sustenta pela "força da grana que ergue e destrói coisas belas" segundo caetano veloso. os argumentos partiram das operadoras de telefonia que, por verem sair voando alguns milhões de centavos oriundos de ligações não feitas e de mensagens não enviadas, sentiram no bolso o que pode fazer um mísero aplicativo e pediram aos sapientes men in black da corte paulista que fizesse cessar a sangria aos seus cofres nem que fosse por quarenta e oito horas. pimba! mais certeiro do que este, nenhum outro argumento o seria.

assim, o brasileiro, que adora caminhar na contramão do desenvolvimento, "sifu". vai ter de enviar sinais de fumaça, usar pombo correio ou então megafone pra convidar amigos pra balada, pra falar do trânsito ou até mesmo pra cutucar eduardo cunha (será que ele não estaria usando da sua influência para conseguir tal bloqueio?). o fato, é que a justiça paulista concordou em gênero, número (muitos números) e grau que as telefônicas estão certas (ganharam quanto pra chegar a isto - já que aqui, com uma graninha na frente em se plantando tudo dá?).

por mim, tudo bem, não uso tanto o tal do zapzap embora meu pobre telefone passe o dia inteiro rangendo os dentes com mensagens zapianas de toda origem. dos colegas de trabalho, dos desconhecidos que acham que me são caríssimos amigos íntimos, da minha família, do grupo de não sei onde que me incluiu sem me perguntar pelo meu aceite. só não me puseram no grupo dos ganhadores da mega sena. mas do serasa, spc, da malha fina do irpf... com certeza eu sou um dos primeiros signatários mesmo tentando, por todos os meios, evitá-los.

mas uma coisa, nessa história toda é extremamente positiva e sinaliza para novos tempos: a celeridade da justiça em se decidir a bloquear o aplicativo. gente, que rapidez! agora, só uma sugestão: durante essas 48 horas de profundo silêncio zapiano, vamos descobrir o maior número possível de juízes (de preferênci, paulistas) que usem o zap (ora, eles, mesmo sem assumir, também o utilizam) e, ao fim delas, assim que o zap voltar a funcionar, vamos torrar a paciência deles mandando mensagens com flores, aplausos e elogios para que eles saibam o tamanho do bem que fizeram ao país.e se algum reclamar, a gente faz que nem o coelho pernalonga quando enche o saco de hortelino trocaletras ou daquele bigodudo turrão e, com cara de inocente, manda um zap perguntando: whatsapp, doc?

Em tempo, as operadoras que pediram o bloqueio do zap, embora sejam todas elas conhecidas, não se permitiram identificar no pedido de bloqueio e daí? porque que a gente não aproveita para bloquea-las também?

p.s.: tem um lado bom: por 48 horas eles conseguiram evitar um monte de acidentes de trânsito ou de gente batendo a cara na porta.




terça-feira, dezembro 01, 2015

o martírio de rocinante ou de como se faz política e rádio na bahia


lembra do célebre cavalo de dom quixote, aquele chamado de rocinante? pois bem, um dos seus descendentes - pelo menos no que se refere ao gênero - acaba de se tornar o pivô de uma guerra política neste estado de espírito chamado bahia. como? quando? porque? bem, vamos começar do começo porque é sempre bom começar a se contar histórias desse jeito.

há, com uma certa tradição, uma feira agropecuária no parque de exposições de salvador, capital da bahia. o parque, como tal, não existe. é apenas um descampado enorme com alguns galpões cobiçado por especuladores imobiliários, construtores e dirigentes dos movimentos sociais vários que brotam em nosso país como flores de maio em abril. além de se prestar para shows de axé-evangélico-meigospel-music onde todos se rebolam louvando, ora a bunda ora a jah, javé e outras divindades menos, digamos assim, populares.

"forró do cardeal" o mártir da fenagro, valia 200 mil 
voltemos ao que interessa: o martírio do cavalo. começou, no último domingo, a tal da feira. e já no acender das luzes, o cavalo, provavelmente desavisado e sem se utilizar de e.p.i. algum acabou levando um choque na suíte-baia-barraco onde se hospedava e partiu célere pra goiás. pra quê? criou-se, a partir do acidente, uma luta ferrenha entre a prefeitura e o governo do estado (sucom x seagri) tendo como árbitro um conhecido apresentador de rádio e tv. a sucom, fez o primeiro movimento ao anunciar orgulhosamente o embargo imediato da feira.

acusando o pontapé na linha do gogó, o governo escalou seu mais traquejado atacante e revidou com um decreto (segundo alguns, ditatorial) desembargando o embargo e mandando o evento continuar como se nada houvesse ocorrido. aí entraram em campo outros contendores: dois deputados, ambos ex-qualquer coisa e absolutamente antagonistas, um, federal, defendendo o uso dos animais como há séculos o homem faz e o outro, estadual, totalmente contrário e considerando que um animal também é gente, dentro da filosofia magriniana - ramo pseudo filosófico ambiental criado pelo ex-ministro antonio rogério magri -  quer proibir até os vaqueiros de montarem seus cavalos e corram atrás do gado num ato de extrema crueldade para com esses pobres e inocentes seres.

aí entrou em campo um outro contendor para desempatar o baba: outro deputado (federal), irmão de um outro ex-ministro, perdeu preciosos passos no check-in do aeroporto onde voaria (a esta altura, já voou faz tempo) para, por telefone, acusar o governador de estar querendo provar que é mais macho que o prefeito, de estar deixando que "este chão é meu, nem boi lambe nem macaco trepa" ao desembargar tão bem feito embargo e que, caso outra tragédia tão trágica quanto a que vitimou o pobre do equino, campeão de várias jornadas e com mais filhos espalhados do que pelé em seus áureos tempos, seria réu como co-autor de homicídio (?) culposo.

e nesse teatro de pecuaristas, adentra o gramado ou relvado, mais uma vez, o tal apresentador. desta feita como um mediador: "foi um cavalo, sim senhor, senhor secretário (estava lá também o secretário de segurança que entrou de gaiato na contenda) mas, não existe o valor de amor sentimental?" disparou. meu deus, me acuda.

o pior é que a feira ainda vai durar a semana inteirinha e novos embates virão. eu nem me arrisco a dizer que tudo isto por causa da morte de um cavalo para que não me envolvam ou me processem. aliás, eu já corro o risco de ser processado porque citei apenas rocinante quando comecei este post. e os outros cavalos famosos dos quais nem toquei nos nomes a exemplo de pégaso, bucéfalo, baloubet de rouet ou até mesmo incitatus, do imperador romano calígula? a sorte que tenho é que todos eles já estão tão mortos quanto este que se tornou o mote para uma briga política, à exceção de pégaso que era e é apenas uma lenda, um mito grego e baloubet de bouet que, embora verdadeiro como o que morreu, eu não sei por onde anda depois de perder um torneio por uma refugada mal dada. falando nisso, qual era mesmo a cor do cavalo branco de napoleão?

enquanto isso, no olimpo lá do planalto central, atenas e zeus jogam seus dados para ver quem vai entrar na barca de caronte e embarcar para o hades. façam suas apostas porque, ao cabo e ao final, seremos todos perdedores.