na rua, na chuva ou na fazenda

terça-feira, março 23, 2021

negando o negacionismo


parafraseando um certo cidadão que costumava iniciar seus discursos de efeito dizendo "nunca antes na história deste país", verdadeiramente nunca antes na história deste país se viu ou se ouviu, em curtíssimo espaço de tempo, um desfiar tão grande de mentiras e um exercício de hipocrisia tão sincero quanto o desta terça-feira, 23 de março de 2021.

em rede nacional de rádio e televisão, o presidente brasileiro me chamou de burro, idiota, beócio, desmemoriado e tudo o mais que ele achou de direito me chamar por não pactuar com sua linha de raciocínio.

hoje, realmente, ele se superou negando a própria negação e acabou por me convencer: ele, definitivamente é o cara que tem se matado para evitar a morte diária de milhares de brasileiros; ele realmente tem chorado lágrimas de sangue para evitar o choro de milhares de brasileiros internados, intubados, internando, intubando ou enterrando outros tantos milhares.

me senti péssimo por ter duvidado tanto do presidente e da sua equipe e até quase me peguei entrando na telinha da tv para lhe dar um abraço e quem sabe, com um pouco de sorte e muito azar meu, lhe passar a pior cepa possível do Covid.

quarta-feira, janeiro 27, 2021

o covid e o covil sombrio do brasileiro

além de detonar, sem dó, o brasilian way of life e matar gente de todas as castas a torto e a direito, o covid escancarou um lado sombrio do brasileiro tido como afável, terno, brincalhão e um povo solidário ao revelar o lado sombrio dessa solidariedade tão celebrada.

com a chegada de alguns milhões de doses de vacina que  não chegam para imunizar sequer um décimo da população local, o país entra em uma refrega que expõe o lado sombrio desse povo tão ensolarado. 

o negacionismo do inquilino do palácio do alvorada e seus sequazes é fichinha se comparado à ideia exposta pelos nababos que querem comprar dos laboratórios o medicamento que pode ajudar a salvar suas vidas e suas castas.

enquanto no resto do mundo grande parte da raça humana tenta alcançar a todos com o imunizante (claro que há exceções), aqui, na terra brasilis, a iniciativa privada quer garantir o seu quinhão e, desta forma, criar a sua própria arca de noé.

mas não só a nata, a elite econômica que age assim, esse lado canalha do brasil está representado pela enfermeira que rouba um vidrinho milagroso pra vacinar seu médico preferido (e olhe que ambos tem prioridade e, portanto, não há necessidade do gesto); a dentista jovem, que se acha no direito de ser vacinada por ter um grande futuro pela frente ou o prefeito que "quer dar exemplo" ao povo.

as altas coortes também reivindicam sua parte nesse latifúndio. stf; supremo; tse... todos, todos feitos do mesmo barro porém, como nos açougues, com cortes mais nobres. enquanto isso...

vacina pouca, meu bracinho primeiro!


terça-feira, dezembro 15, 2020

entre "eles" e "nós" e "finalzinho de pandemia" a vacina vira responsabilidade dos mortos

 "estamos no finalzinho da pandemia." a frase típica do ex-capitão transformado em presidente do brazil é o epitáfio para mais de 160 mil brasileiros mortos até este dezembro pela covid-19.

o grande problema é que ele fala coisas como essa pleno de convicção. da mesma forma como acha que joe bidden não venceu seu idolatrado trump. tanto acredita que não acredita nas vacinas em produção e, por isso mesmo, vencido pelo clamor do povo da ciência, baixou um decreto autorizando a vacinação mas ressalvando que quem se dispuser a tomar a vacina terá que "assinar um termo de responsabilidade".

é mais um round da luta de rua de bolsonaro contra a vacina; é mais uma rodada dessa maluquice, dessa insanidade que grassa no gabinete lá de brasilha onde ele faz de conta que trabalha e que seus filhos fizeram de playground para exibirem suas armas (essas, de verdade).

infelizmente, 37 por cento de brasileiros professam da mesma fé. mas a culpa dessa insanidade instalada na terra brasilis recai única e exclusivamente na cabeça de uma pessoa: luizignatiusluladasilva por sua teimosia em dividir um país antes supostamente único em dois: "eles" e "nós". venceram o "eles" do discurso lulista (não petista, mas lulista) e perdemos nós todos. 

terça-feira, novembro 10, 2020

“...este país precisa deixar de ser um país de maricas!” e la nave va!


hasteiem as flâmulas! rufem os tambores! ergam-se os estandartes e espoquem os fogos de artifícios para anunciar mais uma acachapante vitória do senhor do feudo brasiliano vassalo do landlord defenestrado e recalcitrante cujo poder se esvaziou ao longo dos últimos tenebrosos dias eleitorais.

de cabisbaixo e meditabundo - bicudo como criança que teve seu brinquedo preferido negado - o inquilino do palácio do planalto despertou eufórico com a suspensão dos testes da vacina contra a doença global que tem vitimado milhões mundo afora e, aqui nessas plagas abaixo da linha do equador tem levado seu quinhão diário.

"mais uma vitória!" brada, sem empatia alguma, o mandatário que afronta a si próprio ao afrontar milhões de compatriotas e desdenhar de todos os mortos dos quais ri à socapa. é a compensação que tanto esperava pela derrota que lhe impuseram ou que impuseram à sua submissão os seus amados compatriotas do hemisfério norte.

nós, daqui de baixo, também fomos e estamos sendo derrotados. a cada palavra cuspida pela cloaca presidencial. a cada palavra cuspida pelos menestréis que regem a sua orquestra genocida engendrada pela infantilidade da sua insanidade que grita a plenos pulmões em rede de tv: “este país precisa deixar de ser um país de maricas!”. e la nave va!

domingo, novembro 08, 2020

quem vai querer comprar banana?


tá tudo muito bem, tá tudo muito certo mas, de alguma forma, as eleições dos estados unidos da américa do norte acabaram deixando um gosto de café dormido na boca dos nativos da mais nova colônia ianque no mundo pós guerra. em brasilha, a capital dessa nova colônia, os homens-fortes dessa coalizão andam meio cabisbaixos por ter perdido sua retórica trumpístico/autoritária/eugenística.

isso me leva ao título deste post que, por sua vez, me remete a uma canção do disco "mico de circo" do saudoso luiz melodia: presente cotidiano (quem quiser que procure no you tube). nele, o genial autor de estácio, holly estácio questiona: "quem vai querer comprar banana?" é o que deve estar agora se perguntando o clã presidencial que perdeu a chance de ter um presidente pra chamar de seu.

imagem: reprodução do conversa afiada


sexta-feira, novembro 06, 2020

a síndrome do cachorro à mesa do jantar.

os psicanalistas de plantão e os observadores políticos onipresentes devem estar se sentindo no sétimo céu observando os movimentos da maré eleitoral dos estados unidos da américa do norte. lá, como aqui, possíveis derrotados buscam desqualificar a possível vitória do seu opositor. de todas as maneiras.

lá, pelo menos, existem leis, uma democracia até certo ponto consolidada e que vem sendo atacada justamente pelo primeiro mandatário que não parece muito satisfeito com a ideia cada vez mais clara de que poderá perder a boquinha conquistada há quatro anos quando sucedeu barack obama.

aqui, embora não tenha a mesma importância global da de lá, as eleições municipais surfam as ondas de sua própria insignificância mundial atoladas nos seu próprio modus operandi de sempre: abuso de poder, manipulação de sentenças e decisões judiciais, pesquisas sem base científica e de credibilidade nula etc e tal.

em brasilha, ilhado no seu seio familiar, o nosso presidente promove até -imagino eu - rodadas de oração pela re-unção de trump à cadeira mais alta do salão oval da white house.

lá, trump esperneia que nem criança em busca das tetas maternas no início do desmame.

aqui, o plantel do clã familiar que rege o país, põe os olhos famintos para cima com expressão de súplica.

como cãezinhos rodeando a mesa de jantar.


quarta-feira, novembro 04, 2020

e eu que pensei que morava no brasil


andei meio distante de ler notícias internacionais nos últimos dias e, por causa disso, me tornei um completo alienado geopolítico. acabo de descobrir, com imensa surpresa, que saí do brasil e me tornei cidadão norteamericano com direito a voto e a zorra toda já há algum tempo sem nem ter tido o (des)prazer de passar pela imigração gringa.

claro que fiquei inflado de orgulho de poder saudar a bandeira de stars and stripes como um legítimo papa-bacon com direito a deixar de lado essa coisa verde-amarelo ufanística de gritar "brasil acima de tudo e deus acima de todos!". afinal soa muito mais cosmopolita e desenvolvimentista dizer "god save america!" ou vestir uma camiseta com a carantonha de trump onde se pode ler "make america great again".

o melhor de tudo isto - de ter me tornado norteamericano sem ter pedido - é ver nossos parlamentares, nossos ministros, nosso presidente subirem a palanques e tribunas pedindo votos dizendo que a democracia vencerá e trump vencerá biden cuja única intenção é acabar com o mundo e com as liberdades (temo-las?).

é altamente patriótico olhar o olhar embasbacado daquele rapaz lá do planalto idolatrando a figura daquele cara lá da white house como se santo fosse. tenho mesmo a impressão que aquele olhar é de súplica ou, quem sabe, de amor profundo.

às vésperas das eleições municipais - que determinam o rumo daquelas que vem por aí, em 2022 - o brasil só tem olhos para as urnas norteamericanas.

e eu que pensava o tempo todo ser brasileiro, me descubro um afro-american lá dos bayou da louisianna. 

domingo, novembro 01, 2020

a noiva mais cobiçada

desejada por dez entre dez entre dez postulantes ao cargo de prefeito na bahia, a presença do governador rui costa na campanha eleitoral gratuita no rádio e na televisão tem sido chôcha de fazer dó. isso quando se fala oficialmente. extra-oficialmente, rui tem sido citado, mostrado, tocado e, de certa forma vilipendiado a torto e a direito.

na capital, ele decidiu abrir o leque e aposta suas fichas em denice, bacelar, isidoro ou quem tiver olhos e unhas mais rápidos muito embora o sucessor do alcaide já esteja praticamente com a bunda na cadeira se as pesquisas (e o povo) forem levados a sério. já pelo interior, o bicho pega ponto com ponto bêérre.

em ilhéus, itabuna e adjacências no sul da bahia, a coisa chega a ficar engraçada. em ilhéus, rui e neto (prefeito de salvador e com quem o governador deu um belo exemplo do que seria a política ideal nesses tempos de pandemia) cavalgam diferentes alazões. neto, para marcar território com vistas a 2022; rui, para defender seu feudo.

em itabuna, outra jóia (ainda que gasta) da coroa, rui não dá as caras. quer dizer: dá e não dá. dos onze candidatos, apenas um se declara "itabuna acima de tudo e deus acima de todos!" os outros, direta ou indiretamente, ainda esperam as bençãos de rui. inclusive o candidato - que deveria ser, em tese, o  ungido - do seu partido.

fernando "cuma" gomes, usa imagens garimpadas da internet em eventos já quase esquecidos para lembrar que, em algum momento, recebeu afagos do "correria"; o capitão azevedo, com seus saltinhos miudinhos e sua legítima correria pelas vielas grapiúnas, também alardeia um lugar garantido sob a égide de rui; neófito como administrador, o ex-deputado augusto castro, sobrevivente da covid quer atribuir a um milagre a sua cura e a rui, a sua eleição; geraldo simões, petista de quatro costados, aguarda com santa (im) paciência a definição ou um aceno que seja do cacique baiano. para todos, até o presente momento, nada. nem tchum!

sinal dos tempos? ou será o novo normal da velha política baiana?

de qualquer forma, rui ou a sua presença ainda é a noiva mais cobiçada para subir ao altar no dia 15 de novembro.



sábado, outubro 31, 2020

as várias facetas de um candidato à eternidade

não foi por falta de tempo ou de assunto o súbito e continuado desparecimento de novos textos nesse - nem tão democrático assim - espaço. foi mesmo aquela coisa de estar de mal comigo por não me saber bom o suficiente para falar daquilo que todos falam o tempo todo. até porque seria chover no molhado.

dia desses, conversando com joão "o bonitão" leão, por voto vice-governador da Bahia, recebi um sábio conselho: "você escreve bem mas escreve demais, bonitão! seja mais conciso, depois do tuíter e do zap, ninguém quer saber de muito texto, de muita leitura!"

sábio joão!

então, aí vai a minha primeira tentativa de me reduzir aos termos da "nova leitura" nesse novo normal panderiano.

em itabuna, o octogenário fernando "cuma" gomes, no cargo de prefeito se aferra à possibilidade de continuar sentado na cadeira de mandatário e não mede esforços: joga borra de asfalto sobre ruas enlameadas e posa entre os espalhadores do betume misturado com cascalho capturando cenas para seu programa eleitoral. a justiça eleitoral sequer ergue a venda pra olhar.

fazendo história, o histriônico prefeito manda um eleitor enfiar o voto no c*!; ao outro, ele simplesmente avisa: "você não manda em nada! o prefeito aqui sou eu!" sem lembrar que pede o "voto de gratidão" em seu trabalho de convencimento do eleitor. elegante e pretensioso, na abertura do seu programa, sua imagem aparece sobrepondo-se à cidade vista de cima e, como uma divindade, proclama: quem manda em mim não está aqui. é deus e nossa senhora! e desfia todo o seu rosário.

famoso desde sempre pelo "cuma" fernando decretou a abertura do comércio itabunense (então sob o mais intenso ataque da covid-19 no estado) na base do "morra quem morrer". Isto em julho, no pico da pandemia (e das mortes na cidade). 

agora, na campanha, tenta se redimir, "evita" aglomerações e diz que "em respeito à vida suspendeu as carreatas e caminhadas." na prática, aumentou-as. é o fernandinho de sempre: bigodinho à la cantinflas, só que torto como sua boca; a fala engrolada como um bêbado que não vê a equilibrista e a pose de um gigolô dos tempos áureos do cacau.

melhor mesmo é a leitura (se é que se pode chamar assim) dos bloques locais. é difícil saber quem cobra mais para copiar e colar releases das assessorias. novos tempos. o novo normal do jabá!

em tempo, ó sabio joão: ainda não consegui reduzir a verborragia por mais que o tente!

domingo, abril 12, 2020

Jair ganha a batalha da imbecilidade e o povo sai às ruas. Viva a ignorância!


um vizinho (e eu quase o diria um amigo), pescador, motorista de ambulância e bolsonarista extremo me saiu, na última quinta-feira com uma pérola típica dos  defensores mais ardorosos do presidente brasileiro ao repercutir (ou papagaiamente repetir) uma afirmação cunhada pela equipe de comunicação do gabinete presidencial e exarada dos lábios do próprio capitão em mais um desses eventos matinais de brasilha: “depois dessa crise, vocês vão dizer que os cientistas estavam errados e o presidente estava certo o tempo todo!”

a frase afirmativa e majestática nasceu como arma a ser usada contra os defensores do isolamento social e aqueles que criticam a paixão de bolsonaro e uma parte do seu grupo ministerial pelo medicamento hidroxicloroquina ou, com mais intimidade, “cloroquina” como remédio eficaz contra a sars-cov-19 ou também intimamente, coronavírus.

em meio aos impropérios dirigidos à rede globo de televisão – eleita por dez entre dez bolsonaristas como responsável pela explosão da pandemia no brasil – e ao médico dráuzio varela que acaba de ser nomeado ‘médico da globo’ esse meu vizinho, ao repetir a frase de bolsonaro me fez lembrar de fernando collor de mello que se apossou de uma frase secular da filosofia grega ao vaticinar: “o tempo é o senhor da razão.” isto, nos estertores do seu malfadado mandato.

o messias bolsonaro tem, em sua personalidade, algumas características que fariam a alegria de qualquer psiquiatra ou analista da natureza humana se ele se permitisse a tal estudo. o culto à personalidade de homens que tendem a pruridos ditatoriais como donald j. trump, presidente norte americano e seu ídolo maior depois de edir macedo, olavo de carvalho e carlos bolsonaro, seu filho (e aqui, invertem-se os papéis com o filho se tornando referência para o pai); a mudança repentina de humor e de opinião e a aversão absurda que tem a ser contrariado. "bolsonaro odeia sombra" dizem os chegados ao seu cercadinho.

evangélico, o presidente queria que serviços religiosos como cultos e outras práticas se tornassem parte dos serviços essenciais da nação como saúde, educação, segurança e etc. não conseguiu e esperneou horrores. é quase a mesma coisa de quando quis nomear outro dos seus filhos – aquele que passou um tempo nos istêites aperfeiçoando o ingrêis ao fritar hambúrgueres como embaixador brasileiro junto à maior potência mundial.

contra tudo e contra todos, o presidente brasileiro se opõe ferozmente contra o isolamento social e contra o seu ministro da saúde, luiz mandetta (seguramente o seu hoje mais importante e sério auxiliar – pelo menos tecnicamente) e chegou a cogitar em demiti-lo: “a caneta ainda funciona!” teria dito. os dois tiveram vários ‘arranca-rabos’ em meio a reuniões ministeriais e os alcoviteiros de plantão como onyx lorenzoni e osmar terra, por exemplo, se apressarem a limpar as gavetas de mandetta. não deu certo. a popularidade de mandetta subiu aos céus e bolsonaro quase desce aos infernos antes do terceiro dia.

entre os que se aliaram, desde o início, ao presidente na cruzada contra o isolamento proposto pela organização mundial da saúde e outros organismos para combater a covid-19 estão prioritariamente pastores, “bispos” e “apóstolos” pentecostais como r.r. soares, valdemiro santiago e o próprio edir macedo, dentre outros menos midiáticos. a razão? suas igrejas perdem uma receita brutal com o confinamento. quer razão mais lógica? o fiel bolsonaro, de imediato, baixou um decreto liberando os cultos. perdeu para a justiça que determinou o contrário.

como um menino malcriado, bolsonaro desobedece sistematicamente as regras do combate ao coronavírus e, para mostrar que não está isolado, vai a padarias, farmácias de bairro, feiras-livres só faltando mesmo ir a uma festa de paredão. como ele é inimigo da rede globo, uma visita ao bbb 20 está descartada. mas sendo como é... quem sabe?

ao pregar a quebra do isolamento e sair por aí, o presidente finalmente conseguiu uma vitória. como nas eleições em que se consagrou como aquele que derrubou o poste de luizignatiusluladasilva, bolsonaro mostra que a imbecilidade, a ignorância e a irresponsabilidade (inclusive para com os outros) é contagiosa e contamina rápido. apenas 48 ou 49 por cento das cidades brasileiras estão respeitando as regras.

muitos ainda morrerão. mas a falta de senso, não. carpe diem!



quinta-feira, junho 27, 2019

dois parágrafos e uma linha pra vanessa



há milhares de dias, um bom tempo atrás, você primaverava meu verão em um junho como este de agora em que veraneia meu outono. Hoje, parafraseando um velho conhecido a quem não posso chamar de amigo (é, a vida tem dessas coisas), tenho mais passado que futuro, e é nesse passado que você se inscreve, se escreve e se insere sorrateira como as sombras no quintal de dona anita que me assombravam, me surpreendiam, mas sobretudo, me encantavam.



você me encanta de várias formas. algumas delas nem sempre agradáveis por me remeterem a dores antigas, anciãs como reumatismo, dores de coluna e achaques de velhice. outras, são ternas como cheiro de jasmins ou patchouli. me traz o olhar amigo e, às vezes, censuroso de anita de quem deve ter herdado partes. muitas partes. me traz ainda alguma poesia raivosa de quem te pariu e a quem, em toda medida possível, amei (talvez não tenha sabido dizê-lo). esta é você. o verão no meu outono que já se sabe inverno.


continue primavera e verão e que seu outono demore, demore muito a chegar!

terça-feira, maio 21, 2019

a star is born

desde janeiro, me abstive de postar qualquer coisa neste espaço que, embora considere meu, sei que de fato não o é. abstive-me simplesmente porque falar de política no contexto atual é chover no molhado ou, ainda pior, é inscrever-me em uma das duas facções em que se dividiu o país antes e depois das eleições de 2018.

o sentante atual da cadeira mais alta, mais macia e mais encantadora do palácio do planalto - um néscio comprovado - tem tentado cumprir as suas promessas de campanha: decretos e mais decretos sobre armas (por último, liberou a compra de fuzis); bate-bocas inúteis, sem sentido e sem fundamento pelas redes sociais que ele faz de conta que administra embora todos nós estejamos carecas de saber que o verdadeiro administrador é um dos seus filhos queridos.

manipulado por não sei quantas mãos e dedos, o discípulo do astrólogo olavo de carvalho rende-se ao canto de sereia daqueles que sonham com a imortalidade do bronze com que ditadores perpetuam sua vaidade e seu desejo de poder. ferido de morte para ganhar sobrevida durante a campanha presidencial, jair bolsonaro não é um sobrevivente. é o resultado de uma estratégia que só agora se revela como tal com o apelo a uma manifestação em prol dele mesmo no próximo dia 26.

E, como todos os seus antecessores na história das américas que não tem o inglês como sua língua mater, o presidente brasileiro desponta no horizonte nublado como candidato a mais novo caudilho deste pedaço de mundo chamado américa latina.

ignatius bem que o tentou ao fazer um jogo extremamente populista e que nos lançou no buraco financeiro em que nos encontramos. só não deu certo porque, como dizem os cientistas sociais lá de itapoan, o olho cresceu demais e aí meteram a mão na jaca "de com força" tanta que não sobrava nem caroço. e, além de tudo, do alto da sua esperteza, luiz ignatius, foi besta, otário, babaca, ao não perceber que pra todo sabido tem um mais sabido ainda. e deu no que deu.

o capitão, que se cercou de generais (talvez pra se vingar dos tempos de caserna quando recebia ordens até de majores) e astrólogos e atores pornôs e pastores e venezuelanos pra educar brasileiros e, acima de tudo, de familiares (filhos, primos, ex-mulher, compadres, afilhados e o diabo a quatro) aprendeu rápido, a dizer e desdizer em frações de segundo.
perigosamente à deriva, o brasil navega em direção a uma nova ruptura institucional comandada por um sujeito que acredita que o pior mal do país é a classe política - da qual ele emergiu direto para a presidência da república - e que a história que se conta da história do país precisa ser refeita, reescrita e recontada. desta vez, sob a sua ótica.

terça-feira, janeiro 29, 2019

uma experiência de quase vida


nasci, ou me deram à luz, em meados de 1950. não tenho a menor ideia do que eram aqueles anos ou como era a vida da minha família. meus pais, rufino e dona anita, nunca me contaram. ou por não saberem contar histórias – no que eu mais acredito – ou por não quererem me contar histórias nas quais, hoje, eu não acreditaria. e é assim que eu posso começar me contar ou contar uma história de uma quase vida que eu – como já deu para perceber, não sei contar.

sei, pela minha cor, pela minha estrutura familiar, que nasci pobre, remediado e de duros tempos (os de hoje, quando tento recuperar o que não tenho em memória, também são duros. diferentes, mas tão duros quanto aqueles que, suponho, tenha vivido). memórias bonitas como as fugas da escola para mergulhar em rios, riachos e chafurdar na lama, são recorrentes. outras, gloriosas (e hoje hediondas) como matar passarinhos, patos, marrecos e bichos do chão como coelhos, preás, raposas, veados e tantos outros também o são. tristezas? nenhumas. arrependimentos, poucos. este, sou eu.

filho de uma barriga de (presumo) cinco filhos, não fui ou fui, o último deles. lembro que (e a memória falha como nunca) a minha mãe deu à luz a uma menina que nem cheguei a conhecer (muito menos ver) em um aborto espontâneo. portanto, pela crueldade natural da vida e da maternidade, preferiu ver as trevas ou o paraíso. melhor para ela. lembro que a chamavam também, de anita. novamente, este, este sou eu!

anita, a mãe, dela, de mim, de zezito, de ivone e de vivi (apelido de antonio dos santos, pra variar) tinha um jeito duro, doce de ser; uns olhos cor de quem não sei o que era; um jeito espigado de bambu de paranaguá ou do riacho da guia que eu não conheço em mim mas me vejo em outros. me vejo em alguns daqueles que chamam de meus. filhos, netos... o quê mesmo?

quem sou eu?

vamos a mim? eu não tenho a menor noção ou conhecimento dos anos que envolveram minha nascênca, minha infância ou minha adolescência. sei – e isto é muito presente – do sacrifício em que vivíamos nos arredores de santo amaro da purificação, num pedaço de terra chamado de terra nova, quilombo de quilombos de vários lugares. morrotes e vales de um rio enorme (e hoje morto) que davam prazeres e dores  a quem ali vivia ou achava que vivia. foi onde cresci.

lembro de anita que deu olhos a danilo e aspereza a vanessa. do seu cuidado com um tal de carlito, que virou lallis depois de ter sido batizado carlos alberto. o carlito eu entendo, o lallis, eu compreendo... o carlos alberto, eu prefiro esquecer.

dona anita, como eu, sonhava, sonhou. rufino, me deu um rosto, um jeito, uma cor, uma feição (é a cara do pai!) e eu choro como um cretino por me saber parecido (não sei se igual) com um sujeito homem, feio e bonito ao mesmo tempo. sábio e tão ignorante que me fez ser tanto quanto ele (também não sei se tanto) a ponto de hoje duvidar se somos a reencarnação do outro se isto for possível. dele, tenho poucas memórias. os meus serão assim?

falava de dona anita (helenita, nos registros oficiais): ela me sonhava melhor. ela me sonhava grande. o que ela me sonhava?

definitivamente, não sou aquilo que ela esperava. tampouco sou o que eu próprio me esperava. as vezes, sou mesquinho, tacanho ou, na pior das hipóteses, canalha. na maioria das vezes, calhorda. comigo mesmo e poucas vezes, com os outros. isso me torna ruim. em todos os sentidos. principalmente, comigo.

cometi crimes em minha vida. crimes como me casar, fazer filhos que, ao contrário e como eu, também os cometeram: danilo cometeu filhos como joão e malu (que me olha com os olhos das duas anitas que eu amei (ou não soube amar) me perguntando coisas que não sei responder; vanessa me deu netos que eu não compreendo e me veem com olhos de netos. cometi outros, bem piores como não aceitar a vingança (?) de uma filha que não soube (nem eu) ser filha e, na consequência, não sermos netos nem avô. onde ela e eles andarão?

tenho (?) uma mulher que me ama – pelo menos ela diz e prova porque se mantém ao meu lado – privei-a de uma vida diferente da que tem; tenho (?) quatro pessoinhas que me chamam de avô (diferenciando por nomes) e o que dei a eles?

sabe aquela história do confessionário quando você entra e diz “pai perdoa, porque pequei?” pois bem, de forma alguma, eu diria isto. não quero perdões, ou absolvições. pequei porque pequei. simplesmente por ter pecado. perdão de quem? eu só preciso me perdoar. e não sei fazer isto.

os médicos, estes, sempre metidos a semideuses, dizem que existe uma experiência de “quase morte” quando o corpo deixa de funcionar quase que completamente e sem nenhuma explicação, ressuscitam. é a chamada “síndrome de lázaro”.

no meu caso, já que não morri (ainda) aos 63 anos, é uma experiência de quase vida. eu só não soube vivê-la.














terça-feira, outubro 09, 2018

pra seu zeca

meu caro amigo (se é que tenho a liberdade de chamá-lo assim), ao longo dos meus quarenta e tantos anos como jornalista e radialista, convivi com gente de toda estirpe. gente boa, gente mediana, gente grande, gente pequena... gente que nem merecia ser chamada de gente. convivi, tolerei (e olhe que a tolerância, assim como a pena é um dos piores sentimentos que se pode nutrir pelo outro) e passei incólume por todas essas gentes.

sou, por natureza, reservado. sou, também por natureza, pouco dado a demonstrações públicas de afeto. mas faz-se necessário - pelo menos para mim - o reconhecimento desses alguns poucos anos nos quais tive a honra, o prazer e, às vezes, o desgaste de trabalhar com o senhor (com você, se realmente eu fosse o amigo que esta escrita em tom coloquial pode levar a crer). desgaste, sim, porque, também às vezes, o seu temperamento forte mascarava o sujeito parcimonioso, afável e, desculpe a exposição, gentil e sentimental. fora isso, a convivência é fácil  embora nem sempre leve por conta de todos os seus próprios problemas enquanto parlamentar, enquanto líder político, enquanto ser humano que se dividia entre política, família, amigos e inimigos. inimigos nem tanto... uma boa parte, adversários.

vi o seu sofrimento com o sofrimento alheio. senti na pele essa preocupação genuína (lembra-se?). vi o sofrimento que se lhe cai nos olhos quando amigos queridos desavençam-se consigo (louro, ramon, otto e outros tantos), e a alegria que os fazem brilhar quando retornam. generosidade característica de almas nobres. não sei e não quero saber se já praticou alguma maldade. se bem que, quem nunca o fez que atire a primeira pedra.


esta postagem deveria ser endereçada apenas para o senhor mas prefiro torná-la pública como um reconhecimento, como uma homenagem de um profissional que aprendeu a admirar e respeitar um grande homem, um homem de respeito e a quem se deve respeitar. não se trata de uma despedida. despedidas são lúgubres e pesam na alma e a minha está leve. apenas entristecida. 

aprendi muito com o senhor. em todos os momentos. mesmo quando discordava dos seus pontos de vista. o humor estranho mas bem humorado, a mania de perfeição - a perfeição é uma meta defendida pelo goleiro, dizia a música - mesmo quando totalmente impossível. a eterna briga por morro do chapéu (que, sinceramente, eu não creio que o mereça tanto). 

este post, senhor deputado josé carlos araújo, jca, "seo zeca",  doutor josé ou ainda simplesmente, compadre zé carlozaraújo, como dizia o finado virgulino, é uma homenagem. pura, sincera e simples. como devem ser as homenagens.

quinta-feira, dezembro 07, 2017

a justiça é cega

A justiça é cega mas enxerga o lado que quer
foram vários anos de espera para duas famílias: de um lado, a família da médica oftalmologista kátia vargas. do outro, a dos irmãos emanuel e emanuelle mortos em um conflito de trânsito numa avenida litorânea de salvador. no início deste dezembro, as duas famílias se encontraram no salão de um tribunal rodeadas de advogados e diante de uma plateia ávida por um espetáculo mas, dizendo-se ansiosa por justiça. e é aí que a porca torce o rabo.

o desfecho do embate entre acusadores e defensores foi o mais inesperado, o mais surpreendente possível. por quê? menos pela habilidade dos contendores togados, mais pela inapetência do brasileiro já acostumado pela impunidade grassante nos mais altos níveis da sociedade, quatro dos sete jurados absolveram, totalmente, a médica que saiu sorridente, assim como todos que a cercavam, livre, leve e solta. e a sua consciência?

kátia vargas foi protagonista de uma cena cada vez mais comum em nossas ruas e avenidas: por um nada, motoristas, motociclistas, transeuntes e ciclistas se xingam, se estapeiam e, como neste caso, acabam matando. depois de alguma coisa que não ficou muito clara, kátia vargas e os dois irmãos se estranharam no charmoso bairro de ondina e a médica, também não se sabe por quê, armou-se do seu carro e arremeteu contra os dois que ocupavam a motocicleta. resultado: a moto, atingida pelo carro, desgovernou-se e nesse desgoverno, colidiu contra um poste matando os irmãos.

kátia vargas, ao longo desse tempo - entre o "acidente" e o julgamento - mudou, várias vezes, a sua versão para o fato. e, neste começo de dezembro, final de primavera, os jurados da pantomima em que se tornou o julgamento, decidiram que essas mortes foram obra do acaso. entre a fisionomia chorosa e abatida com que chegou ao salão do júri na condição de ré e o sorriso largo de inocente que ostentou na saída, ficaram a consciência da médica e seus defensores (aí se inclui ricardo molina -aquele mesmo do caso de pc farias e sua namorada - pago a peso de ouro para vir desqualificar os peritos locais) e a frustração de quem, por necessidade de sonhar com uma lei que servisse para todos, indistintamente, viu cair por terra sua fé na justiça dos homens.

kátia vargas está livre e impune. quem acreditava na justiça acabou condenado. 

bem a tempo, me vem à lembrança a revolta de um jovem jornalista de quem gosto muito. franco adailton, filho de dois bons e velhos amigos, disparou em uma rede social: "se quiser matar e sair impune, é só atropelar." tem toda razão, franco. toda razão.


terça-feira, novembro 14, 2017

jaws

eu sei que vocês vão tirar sarro da minha cara por causa do título acima. a razão dessa metidez de título postado em inglês é por uma só razão: não encontrei outro e aí me veio à cabeça aquele aterrorizante filme de steven spielberg onde um tubarão branco matava meimundegente numa praiazinha lá dos estadunidos. isto (o filme) foi em 1975 (viu como sou velho?). o título original do filme era "jaws" e aqui foi tupiniquimente traduzido para "tubarão". o interessante é que o cartaz do filme mostrava um tubarão exibindo galhardamente a sua dentadura como um sorriso. e daí, o que tem a ver o sul com a salsa? vais a excrever uma crônica sobre tuas memórias, ó gajo velho? podes estar a me perguntar enquanto lês. não. não é nada disso.

como sou velho e distraído, nunca havia me dado conta de um fenômeno provocado pelo advento dos celulares e das redes sociais que espocam a cada segundo e modificam hábitos, moldam novas personalidades até mesmo em quem já as tinham formadas de muitos e muitos anos. e esse fenômeno pode ser visto nos shoppings, nos jardins, nas praias, nos bares, nos restaurantes, nos cinemas e até...em acidentes. chamado de "selfie", o fenômeno é um exercício de narcisismo que serve, tanto para alegrar, quanto para entristecer. embora não pareça aos olhos de quem é adepto, pode ser perigoso para quem não se inclui na paisagem. 
resgate do passageiros da lancha  (foto:PM/BA)

outroramente, nos primórdios da 'selfie', uma moça estadunidense acabou filmando a própria morte ao se "selfiar" enquanto dirigia. recentemente, aqui na terra brasilis, um grupo de estouvados - e provavelmente, bêbados - a bordo de uma possante lancha fazia uma farrinha entre a baía de todos os santos e o litoral sul da bahia quando a tal da lancha naufragou. e o que um deles fez enquanto esperava ser resgatado? uma selfie. sacou do celular, botou o bracinho pra cima, arreganhou os dentes e, ploft! um click para a posteridade! dá pra imaginar leonardo di caprio e kate winslet fazendo uma selfie (ao diabo com as aspas!) na proa do titanic apontando pro céu segundos antes de despencarem nas águas geladas do atlântico norte?

pois bem. o tal do selfismo galopante que atinge bebês (eles já nascem agarrados ao celular antes das tetas da mãe), crianças, adolescentes, jovens e velhos, me passava desapercebido até poucas horas atrás quando saí do prédio em que trabalho e me deparei com um sujeito de dentes cavalares, um barbicacho sob o queixo, um sol de lascar e parado, aproveitando um baita engarrafamento monstruoso, sacou o celular e, num gesto universalizado, entortou-se todo, levantou o celular, congelou o sorriso dos tais dentes que não cabiam na boca e tascou-se um click. depois, num outro gesto também universalizado, foi conferir o resultado. não gostou e fez de novo.  depois, teclou qualquer coisa no aparelhinho, abriu outro sorriso aterrorizador e foi-se embora. fiat lux, nasceu este post!

vai que steven spielberg, num salto para o futuro, conheceu a técnica da selfie e aplicou-a no filme ou, pelo menos, no cartaz. 




terça-feira, outubro 17, 2017

lavando as mãos ou um outro jeito de tirar o braço da seringa

eu ando careca de saber que em brasilha - e fora de lá - ultimamente, tudo pode acontecer. e acontece. tão careca de saber disso, deixei de escrevinhar sobre o assunto porque já virou papo de preá com melancia e todo mundo fala sempre a mesma coisa. são os batista, é o battisti, são os vieira (não as vieiras portuguesas que são deliciosas!), enfim... aí você deve estar se perguntando: "então por que cargas dágua resolveu escrever agora, mané?" bem, a explicação é simples e beira o nonsense.

nessa coisa do aécio das neves empedradas que despeja nos copos de whisky nos bares do rídejanêro, há uma queda de braço entre o éssetêéfe e o senado. segundo as más línguas, um quer meter a colher na sopa do outro e, no meio dessa profundíssima discussão, desse profícuo debate, estão os colegas do tadin' do aécin'. todos torcendo por uma "solução pacífica". há quem queira que o sobrinho do finado tancredo saia. há também quem não queira e, há ainda aqueles que não o querem nem tão perto nem tão longe. apenas não o querem. mas não dizem isto às claras nem que a vaca tussa.

nesta fase, em que os poderes que andavam se bicando fizeram as pazes, os senadores viram-se então atormentados por outro dilema: como fazer a tal solução pacífica?  e descobriram um jeitinho que já se utilizaram outras vezes e propuseram então a votação secreta. vozes se alteraram, o "clamor popular" (que não aconteceu mas se advinhava que viria) calou fundo nas consciências e um juiz-ministro jogou a pá de cal: "vai ser tudo às claras!" detonou o magistrado novamente metendo o bedelho nas soluções alheias. aí danou-se!

com a decisão do cidadão togado, o senado fez-se correria (nada a ver com o governador baiano rui costa) e o resultado é que está uma debandada geral com as desculpas mais esfarrapadas possíveis para tirar o braço da reta. tem senador em missão no exterior, tem senador visitando a avózinha que está em vésperas de ir pro goiás... tem desculpa pra todo gosto. agora, aqui pra nós, a desculpa mais deliciosa - e é a razão deste 'post' - é a de ronaldo caiado, ruralista de quatro costados, ele próprio que do mesmo jeito que seu colega quase condenado a ter o mandato guilhotinado, também tem os olhos vigilantes daquela moça vendada sobre si. caiado disse estar impossibilitado de comparecer à sessão velório ou de extrema-unção por um motivo muito simples: caiu da mula.

não apresentou atestado médico. a mula ainda vai ser ouvida pela pgr e já negocia uma delação. até lá....

quarta-feira, setembro 13, 2017

as malas da redenção

onze entre dez baianos reagiram com uma sincera inveja à descoberta do navio santa clara* e seus tesouros em plena sala de um apartamento num bairro no antigo centro nobre de salvador. emprestado por um amigo, o apartamento - que se tornou uma espécie de eldorado - serviu, depois da descoberta do tesouro escondido, de motivo de descontentamento para os moradores humanos do prédio que tiveram atraida para o seu, até então bucólico sossego, as atenções de gregos, soteropolitanos, jornalistas, blogueiros e até fofoqueiros de todo o país. quanto desconforto!

pois bem, o tesouro de ali babá encontrado no bairro da graça deixou no ar inúmeras e variadas opiniões. variaram do "como é que eu não sabia disso?" a até o famoso "eu já imaginava!". mas revelou também uma demonstração do que o amor materno pode fazer pela sua cria. para minimizar 51 milhões e alguns trocados de esperteza, a mãe do dono dessa dinheirama, mesmo tendo sido visitada pelos agentes da lei - que não perdoa a posse de tesouros escamoteados sem declaração do imposto de renda, fundo partidário e o quinhão de banco dos mais chegados, declarou com os olhos rasos d'água que seu filho amado, sofria de uma doença psíquica: a cleptomania!

a moléstia que acomete o gordinho ex-todo poderoso nas salas, ante e entre-salas de brasilha é uma doença que, ao que parece, naquelas e em outras plagas vem se tornado de tal forma contagiosa que, daqui mais um pouco, a organização mundial da saúde vai recomendar que os cientistas se debrucem à cata de uma vacina para blindar os mandatários de todas as esferas de governo mundo afora. mas, como criar uma vacina dessa estirpe, já que a bendita doença é da cabeça, da personalidade, é da alma? vai que a gente precisa mesmo, para que isso dê certo, daquela máxima da rainha do conto alice no país das maravilhas: "cortem-lhes as cabeças!"

pensando bem - e olhe que se eu pensasse tão bem assim provavelmente não seria eu - as malas e caixas que criaram essa imagem da nau santa clara, do eldorado, de tesouro de ali babá na minha cabeça, podem muito bem ter sido as malas da destruição do que restava do poder do gordinho valente que chora quando é picado por uma reles muriçoca. podem ter sido... pra ele e o seu clã e agregados mas, pra muita, muita gente mesmo, seriam isto sim, as malas da redenção! o santo graal dos acasos.

*curiosamente, o santa clara saiu de salvador com uma carga avaliada em, cerca 200 milhões de dólares atuais e naufragou ali pelas bandas de arembepe, bem perto de onde o moço dos parcos 51 milhões (de reais) mantém um bela casa.

terça-feira, agosto 15, 2017

reconhecimento de paternidade ou o que falta do que fazer não faz?

 hoje cedo, nas minhas viagens pelos sites de notícias da cidade da bahia, me deparei com uma notícia deveras assustadora para quem, como eu, gosta de animais ou mais sofisticadamente falando, "pets". a desalentadora notícia tinha como pano de fundo a iniciativa de uma vereadora (escrevo assim por ignorar completamente o feminino de 'edil' e tenho a vaidade de querer escrever de forma culta) que pretende obrigar os cartórios a emitirem certidões de nascimento para cães e gatos soteropolitanos tornando por consequência, os declarantes dos dados constantes dessas certidões mães e pais dos canídeos e felinos que com eles convivem. 

portalcafebrasil.com.br
a moça - que me perdoe a presunção - afirma que sua iniciativa vai promover uma maior integração entre os animais e a família dos seus donos (quero dizer, pais) e ainda vai facilitar a locomoção dos bichanos e totós nas viagens da família porque, ao lado da tal certidão de nascimento, vai também uma "carteira de identidade" dos bichinhos com direito a foto e devidamente reconhecida pela autoridade cartorária. ah, sim, haverá também a obrigatoriedade de "dar o nome" ao bicho. quer dizer: na hora em que o bicho é reconhecido em cartório como membro da família, ele ganha também o direito de usar o seu sobrenome. 

lá em casa, em priscas eras, quando um casal de akitas era dono do terreiro, ia ser uma festa! uroi, um akita tigrado, iria se chamar uroi vittorio roma de santana. peraê! dona dida teria parido um cachorro?! valha-me deus! pior seria se um 'adevogado' desses mal intencionados resolvesse exigir que o meu cachorro, a partir do momento em que foi reconhecido como filho tivesse todo o direito inerente à sua nova posição no seio familiar? 

isto que cito acima é apenas a ponta visível do iceberg do projeto da ilustre defensora dos pets. em sua justificativa, ela chega a dizer "eu tenho vontade de ter o registro do meu animal, do meu filho!" aí eu me pego imaginando uma cena em que ela, vai caminhando com seu maltezinho ou chihuaha ou vira-latas e encontra uma amiga de longas datas: "matilde, querida, há quanto tempo!" "oi, mila, menina, você não mudou nada e que cachorrinho lindo esse!" "ah, menina, este é meu filhinho toby, de dois anos" "ah, querida, e você casou quando?"

pior é se, seguindo sua iniciativa, outros parlamentares da mesma linha de defensores dos animais resolverem aperfeiçoar sua ideia e estenderem-na para outras espécies. nossenhora! o que vai ter de orgulhosos pais dizendo "meu filho é um jumento" ou mães gloriosas curtindo no face "olha só a vaca da minha filha!"

o que a falta do que fazer não faz?


sexta-feira, junho 02, 2017

desisti de desistir (o retorno)

diante de tanta ignomínia que tenho visto, ouvido e lido sobre a república brasilis nesses tempos bicudos de lava-jato, eu havia decidido abrir mão do direito de tentar opinar sobre tudo isto que vem acontecendo. porém, ah! porém, como diria o mestre paulinho da viola, descuidei-me da minha decisão e eis-me aqui, outra vez, falando por escrito, aquilo que me vai na alma brasileira que carrego nas costas. no noticiário de sexta-feira (2 de junho), luizignatiusluladasilva, primeiro e único (e espero, último) boquirrotou para quem quisesse ouvi-lo (e existem milhões de tolos que o veneram)entre gargalhadas da plateia: "um canalha de um empresário diz que fez uma conta no exterior pra mim e pra dilma, mas a conta está no nome dele e ele que mexe na grana. tá na hora de parar de palhaçada, que o país não aguenta mais viver nessa situação, nesse achincalhamento."


investigado em cinco inquéritos na operação comandada pelo juiz sergio moro (eleito como o incendiador de brasilha e de outros cantos das grandes empreiteiras),  ignatiusluladasilva manipula com extrema habilidade a multidão embasbacada que o acompanha nos comícios que tem feito desde que começaram as investigações. ora vítima, ora algoz, ora criminoso ora herói, ele ganhou, de há muito,  o meu respeito por essa habilidade. sim, eu o respeito como um dos mais habilidosos políticos que este país já concebeu algum dia. sem diplomas acadêmicos - à exceção daqueles honoríficos - o sujeito que passou de "sapo barbudo" a "pai dos pobres" com suas ações de cunho assistencial-populista como um getúlio vargas nordestino (embora ele o negue sempre com atitudes que nada tem a ver com o sertanejo deste lado de cá do país), ignatius, cuja enorme capacidade de articulação e manipulação é a mesma da sua voracidade aos espíritos etílicos sejam lá de que procedência forem, desqualifica toda e qualquer acusação. na verdade, ele nem deveria mais tentar desqualificá-las mais já que a culpa foi, segundo ele mesmo em depoimento a moro, da pobre dona marisa, egressa deste mundo de meu deus há pouco tempo. declaração das mais infelizes que esse astro do picadeiro em que o brasil se transformou já pode prestar.

deixemo-lo de lado, vamos pensar nas outras pobres criaturas que, como ele (não deu pra deixá-lo completamente de lado), foram ou são alvos da lava-jato: luiz argolo, ex-deputado federal, antonio palocci, ex-braço direito de ignatius; marcelo odebrecht, ex-mandachuva da empresa que leva o nome da sua família; eduardo cunha, ex-todo poderoso da câmara; sergio cabral, ex-governador do rídejanêro e amante de jóias e jantares nababescos... todos (por enquanto) enjaulados e apreciando a paisagem das janelas (?) de suas celas. outros, que não foram e não são alvos da lava-jato, percorrem as ruas e vielas do país como baratas tontas procurando emprego, comida, escola, saúde e tudo o que o estado deveria - em tese - ser o provedor, estão tão encarcerados quanto os acima citados e seus companheiros que não foram aqui nominados. são prisioneiros de homens sem escrúpulos (e suas mulheres) que fazem valer a máxima  publicitária cunhada na década de 70 do século passado quando um jogador de futebol dizia que "como todo brasileiro, eu gosto de levar vantagem em tudo!".

o empresário-bomba, joesley batista, também está luxuosamente prisioneiro na quintavenida lá de noviorque em seu apartamento de 52 milhões de dólares. enquanto isso, sãpaulo se divide em cracolândias e o rídejaneiro vê as armas dos traficantes chegarem em seu principal aeroporto. mas "o rio de janeiro continua lindo..." diria gilberto gil em seus antigos devaneios musicais. aliás, o rio de janeiro continua sendo o principal polo de tráfico internacional de cocaína do país, continua sendo o quartel general dos barões da droga. infelizmente. porque, como o resto dos brasileiros, o rio de janeiro não merecia e nem merece ter se tornado isto. chicobuarqueando: "amanhã, há de ser outro dia..."


e como nem só de luizignatius et caterva vive o meu desapontamento com este brasilvaronil, o atual inquilino do palácio do planalto e que prefere se homiziar no palácio do jaburu, também articula e manobra suas artimanhas: para proteger seus aliados e quebra-facas, baixa medidas provisórias como as crianças baixam aqueles joguinhos enjoados no tablets. só que, no caso dele, são ordens que blindam seus asseclas e os isolam da possibilidade (real) de visitarem, na condição de hóspedes, os mesmos presídios da turma que falei lá em cima; para se proteger, demite e nomeia ministros justamente para os tribunais onde ele poderia, eventualmente, ir parar.